arte: loro verz

»Perdi Caetano, perdi Bowie. O Rio de Janeiro, um pedaço nobre de São Paulo e toda a Itália, de norte a sul, eu perdi. Séries de TV, reality shows, quatro ou cinco restaurantes, algumas receitas caseiras – pesto, estrogonofe, massa fresca, tudo isso adormeceu em mim.

Por um tempo, ao menos, afastei-me de todas essas coisas. Músicas, lugares e comidas se foram junto com as paixões. Quando o amor parte, com ou sem aviso, de surpresa ou de cansaço, leva o corpo e o sorriso, o olhar e o calor, e também um pedaço do mundo. Todo um contexto compartilhado vai embora, quando o amor fecha a porta.

Vão-se as coisas palpáveis, como aquela marca específica de chocolate ao leite, e as abstratas: um certo gesto, um certo cheiro que, hoje, revira o estômago. No lugar em que estava o amor, fica o bode. Os bodes  – bando de caprinos espalhados pela cidade.

Na poltrona do cinema, na faculdade, na esquina do primeiro beijo ele está lá, desafiador. Cheira terrivelmente mal.

Das coisas mais tristes do fim é ter de lidar com os bodes. Se o relacionamento foi curto, ou morno, restarão apenas um ou dois cabritos sugerindo que a experiência de tomar um café naquele lugar àquela hora não será mais exatamente a mesma. Aquele Starbucks numa manhã de domingo, ruim, mas lindo, volta a ser sem graça. Mas já era sem graça, então tudo bem.

Quando a relação foi, no entanto, muito intensa ou muito longeva, ou ambos, os bodes do apocalipse hão de se multiplicar, barulhentos e famintos, para arruinar qualquer tentativa de reencontrar os prazeres da rotina perdida.

Não sei muito bem como lidar com o bode. Quando é cabrito, espanto. Abano as mãos e bato o pé com força. Depois, abro uma cerveja e escancaro as janelas para a lua e estrelas. Ninguém me tira a poesia. Sempre posso cantar.

Mas às vezes o bode é grande e ameaçador. Um bode velho e amargurado que rumina solitário num deserto de ossos e restos de comida. Seus olhos vermelhos pousam sobre mim como quem diz atreve-te e devoro-te também. Nesses casos, tudo o que posso fazer é esperar o bode cansar. O bode passar.

Já tentei, no passado, enfrentar à unha um desses demônios. Seu traseiro gordo e suado estava sentado sobre um velho disco de vinil. Era meia-noite. A casa vazia. Silêncio. Falei firmemente: cai fora, bode. Esse disco é meu. Já era meu antes dela e já era meu muito antes de você. Avancei sobre o animal. Revidou com chifres e cascos, mordidas e pontapés. A muito custo, venci. Passei o resto da madrugada deitado no sofá lambendo as minhas feridas. Forcei-me a ter prazer, mas não tive. Ouvi o disco inteiro, estoicamente, e depois dormi.

Junto com o bode, foi-se o prazer. Não adiantou muita coisa, toda aquela discussão. Brigando com o bode eu brigava comigo também, e assim feri de morte algumas de minhas melhores lembranças.

Mudei de tática. Cultivei a paciência. Com o tempo descobri o valor do tempo: se eu fosse suficientemente firme para não fazer nada, talvez aos poucos pudesse voltar a frequentar velhos amores, talvez pudesse domesticar os bodes.

Voltei a mim mesmo e aos novos velhos amores que fizeram de mim o que sou. Cantei Caetano, dancei Bowie. Comi massa trufada. Repeti. Caminhei por muitas cidades e desaguei em muitas praias. Assisti ao Masterchef, ri, vasculhei filmes antigos em minúsculos sebos, conforme nossos planos. Resgatei sonhos: a casinha bucólica com cães e gatos no jardim. Uma pequena adega, lareira, discos e livros e a preciosa coleção de DVDs.

Se o amor foi amor, e se estamos prontos para amar, o bode acaba virando amigo. Uma lembrança em tons pastéis, uma saudade morna, mas não triste. Uma boa companhia, sem ciúme nem sarcasmo, que não impede a aproximação de outros bichos.

Estreou um filme bacana no cinema. Comprei os ingressos. Acho que a gente vai curtir.«

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