arte: loro verz

»Para um imigrante, qualquer contato com a cultura nacional é precioso.  Portugal, nesse sentido, tem suas vantagens. O país é um destino natural para os artistas brasileiros em turnê pela Europa.

Caetano esteve aqui. Há apenas algumas semanas, apresentou-se no Coliseu do Porto, depois de passar por Alemanha, França e que tais. A Europa rica. Um show simples, minimalista, voz e violão. Um senhor de 79 anos de idade recém-completados, elegantíssimo, suave, precariamente equilibrado entre o cansaço e a indignação.

Antes, durante e depois do show, pipocavam os cânticos “Fora, Bolsonaro”. Caetano sorria discretamente – às vezes, insuflava: “é claro”. A galera nas galerias gostava. Gosto de crer que nesses lugares, nos lugares de celebração da arte e da vida, não existem boçais.

Eu sei, eu sei, cada um se ilude à sua maneira. Depois do show, comentei com os amigos que ele poderia ter cantado “Podres Poderes”, um canção quase tão velha quanto eu – e tão atual.

***

Podres Poderes foi lançada em 1984. Era a primeira faixa do seu 16º álbum de estúdio, Velô. Eu tinha quatro anos de idade.

Aos quatro anos de idade eu era, como todas as crianças de quatro anos de idade, um ser imaginativo e sonhador. Tinha um vocabulário razoavelmente extenso e gostava de aprender novas palavras. Desenhava figuras humanas com círculos e traços. Brincava muito, o tempo inteiro, com bonequinhos de plástico, bolas de gude, livros e figurinhas. Tinha algumas amizades, como a maioria das crianças, mas não o vício de falar incessantemente sobre qualquer coisa, horas a fio, sem cansar.

Gostava de aprender palavras. Guardava-as como um tesouro (raramente exibido sem propósito). Aprendi algumas palavras com Podres Poderes. Ridículos tiranos.

Caetano tinha a minha idade quando lançou Podres Poderes: 41 anos. Ao chegar em casa, depois do show, ouvi-a novamente e lembrei do show no Coliseu. Elegante, fino, mas também cansado. Deve ser extenuante, assistir ao mesmo filme ruim.

Será que ele não havia cantado a canção por ser tão óbvia, tão desnecessária? Por estar tão dolorosamente exposta ao sol a incompetência da América católica?

Ainda assim, lamentei. Precisamos tanto ouvir o óbvio. Mastigar velhas palavras, como as crianças de 1984, e repetí-las bravamente, como os jovens de 1984, com nossas bocas, nossos corpos, nossos votos, nossa alma inteira.

Precisamos dar um basta aos ridículos tiranos.«

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