arte: loro verz

»A gente anda muito separado. Dia desses, durante uma palestra sobre cinema russo, o homem alto e esguio de cabelo grisalho e barba por fazer disse que era uma pena que andássemos tão apartados. Temos perdido tanto – e há tanto mais a perder.

Então riu um riso doce e triste, pediu desculpas pelas provocações inócuas e desapareceu.

Quanta coisa poderíamos fazer juntos: arquitetos, escritoras, cineastas, dançarinas, violeiros, cantoras, pintores e fotógrafas. Dei a volta pela sala com a minha câmera. Eu reconhecia todas as pessoas ali, mas não consegui acessar muito mais.

Decidi: vou procurar a minha turma. 

Ontem, no museu, o curador, que também era artista e filmava cabeças grisalhas, falou por mais de uma hora. Ele articulava as palavras com dificuldade, e recebemos cada som com a maior atenção. Havia fotografias analógicas do corpo humano, um carro acidentado, paisagens vistas do alto, paisagens digitais, um vídeo de uma mulher dançando alegremente. Uma moça com uma espécie de bata florida que parecia ter sido pintada à mão minutos antes do passeio caminhou ao nosso lado. Sorria. Quis ser amigo dela, mas não avancei no projeto. A gente, de bobeira, perde boas oportunidades.

O bom de fugir às rotinas é abrir espaço às novas paixões e às novas oportunidades. Comecei a fotografar e a fazer pequenos filmes. Cozinho direitinho, fiz meu próprio fermento e os últimos pães estavam legais. Uma amiga quer me convencer a adotar um gatinho de rua. Fui  convencido – só não pra já. Primeiro estou aprendendo a me cuidar. Estou procurando o meu lugar e a minha turma.

Minha filha vai pra escola de manhã e todo dia acordo com o barulho da porta às oito. Tenho sono bem leve, mas pouco problema para voltar a dormir. Se o dia é de sol, levanto e faço café. Se é chuvoso ou frio, enrolo debaixo das cobertas só mais um pouquinho. Leio, ouço e vejo muito noticiário. Vícios de formação. Então vou trabalhar. Ao meio-dia faço o almoço, depois lavo a louça, trabalho, reflito, e volto a cozinhar. À noite posso improvisar coisas mais simples (é pena que pouca gente goste realmente de sopa).

O ódio das pessoas às vezes me desanima. Faz vinte anos que escrevo bobagens do meu dia a dia e falo de amor, mas tem gente que não tem tempo a perder com bobagens do dia a dia e muito menos com amor. Tem gente que tem que ganhar a vida e, enquanto ganha a vida, arruma tempo para perdê-la. Eu tenho visto o desamor se alastrar como um vírus.

A literatura me vacinou contra esse mal. Nem lembro o nome das pessoas que me passaram para trás. Não tem muita importância. Os dias são curtos, a vida é curta, todo mundo sabe disso. Mas há tempo de sobra para tudo o que importa: amar, decepcionar-se e reamar várias vezes, como quem vai e volta, morro acima, morro abaixo. Fazer amigos e longas caminhadas.

Tudo isso é mais gostoso quando é compartilhado; é melhor com a nossa turma.

O que eu sinto não sei dizer, por isso digo demasiadas palavras. Prefiro tatear coisas sem nome do que me fixar em batizá-las. Eu receio o poder dos nomes. Gosto de Manoel de Barros – que não é um nome, mas um sistema solar. Gosto de palavras azuis e música aromática, gosto de imaginar o som da sua valentia, atravessando o oceano para me encontrar, e inventar enredos românticos.

Preciso reunir uma turma para falar dessas coisas. Vem? Falar de cinema, amor, comida, filosofia, humor e literatura. Enredos e segredos.

Gosto estar sozinho, mas gosto ainda mais de me misturar devagarinho.

Na hora da faxina tenho ouvido Caetano; resgatei Marisa Monte no meu coração adolescente (que bate bem, obrigado, e apanha ainda melhor). Faço programas sem objetivo, como 1) caminhar, 2) ver o sol, ouvir a gente,, a chuva, os bichos, 3) passar café no coador, nem que sem querer beber, 4) fantasiar. Gosto de caminhar até a ponte e de voltar para casa de metrô.

Às vezes chega uma carta de Curitiba, uma mensagem de São Paulo, um postal de Brasília, uma foto da Itália, e sinto imensidões. Escrevo cartas imaginárias. Faço filmes no enquadramento das mãos. Acho que já tive mais de todas as coisas, menos: sossego.

Outro dia eu dizia todas essas coisas para as minhas amigas no café. Elas estavam de conluio para me saber melhor. E eu, que não sei o que serei, muito menos quem sou, achei bonito e chorei de mansinho.

Agradeci. Eu não sei o que vou ser quando crescer, mas já sei, sim, qual é a minha turma.«

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