arte: loro verz

 

Sempre fui parabólica de escutas involuntárias. Seja no balcão da padaria, onde me flagrava especulando sobre a vida dos casais, seja como confidente da gente ao meu redor. Tímido e sem saída, não tive alternativa senão a de transformar a gentileza em ato criador; a curiosidade em ofício; os ouvidos em catedral.

Caos em cosmo.

Há algo de sagrado no ato de ouvir. Ou melhor: no gesto de escutar. Toda escuta é, potencialmente, uma concepção, um parto, um nascimento.

Um famoso autor já disse que escrever é um jogo de esvaziar cálices. A vida os preenche com suas agruras. Cálices de amarguras. E também os preenche com suas alegrias, alegrias tão diminutas que individualmente passariam despercebidas (mas que, em cálice, se somam): folhas caindo, a chegada da primavera, brisas em dias quentes, sol em dias frios, cães e gatos, sorrisos involuntários da plateia, olhares que se cruzam e magnetizam, suspiros, uma xícara de café.

Então, quando prestes a transbordar, o escritor derrama sobre o papel a sua colheita. O melhor vinho vem das mais insuspeitas safras, um balanço delicado. Serve-o e prossegue. Como num ciclo vital, reinicia a sua jornada – gota a gota. Reencher o cálice. Mas em busca do quê?

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O sentido da vida é atribuir sentido à vida. Ele não vem pronto, no desenho dos astros. Por isso a resposta é diferente para cada pessoa, a cada momento. O sentido pode ser crescer, evoluir, amar, expressar, enriquecer, aprender, desaprender. Multiplicar ou dividir.

Pela escuta a vida se torna prenhe de significados.

As palavras, grávidas de sentido, dão à luz, em nós, a nós – sentido que nos define. Somos seres de palavra.

Seres de palavra, nos constituímos num emaranhado de narrativas: aquelas que tecemos e aquelas em que somos tecidos. Mais precisamente, nos constituímos nos nós desses fios, nos encontros – ou nas colisões – das narrativas.

Por isso desde cedo aprendi a ter cuidado com as palavras. As palavras têm poder, erguem e destroem, conduzem e amaldiçoam. Moldam.

Nenhuma palavra jamais é esquecida.

Por isso quando me sento e ela fala, eu escuto. Escuto seus silêncios e suas palavras, cada sílaba e cada verso de sua toada. Como sibila e como cala. Eu dou vida a ela, e ela me dá a vida, quando se cruzam nossas narrativas.

Ouvir é muito perigoso. Às vezes, portanto, melhor permanecer em silêncio. Nas polêmicas ligeiras, precisamos ter opinião sobre tudo. Mas cada opinião ligeira funda a ligeireza nossa. Melhor pensar. Calar.

É preciso ter muito cuidado com o que se fala.

E ainda mais cuidado com o que se escuta.

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Meu romance, Febre, você encontra aqui. 

Um conto fantástico: A guerra das torres.

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