arte: loro verz

» Conversar com uma mulher é a coisa mais fácil do mundo; apesar disso, impossível.

Na verdade, o mesmo se passa com a comunicação em geral. Ainda que seja condição indispensável para a nossa existência plena (com algum significado, digamos), é empreitada impossível. No máximo, fazemos aproximações e traduções livres de nossas intenções mais sinceras. Nunca de fato comunicamos perfeitamente algo. Fica sempre faltando dizer alguma coisa. Por isso aquela sensação constante de “eu não disse tudo”. Não. Não poderia, porque o outro é um enigma.

Nossas conversas são cheias de lacunas; nossos discursos, esburacados e sem gravidade como a Lua. Sentidos flutuam no ar. Quando, na mesa do almoço, a mulher pede o sal, isso pode significar duas mil coisas distintas, porque ela, como eu, é um universo particular, impenetrável.

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Só os animais interagem sem ruídos. A brincadeira do telefone sem fio não faria sentido para uma formiga. Os insetos vão retransmitindo a mesma informação fielmente, sem ruídos. Às vezes dá inveja dessa capacidade milimétrica, mas de que adianta, se eles não podem sonhar Atlântidas?

Quando converso, partilho Atlântidas, ainda que entendam Antártidas. Tudo bem. O importante, na verdade, nem é se fazer entender. Não sempre – essa obsessão deixemos às formigas. O importante é o abraço dos ouvidos, a escuta dos olhos atentos.

Conversar com uma mulher é a coisa mais fácil do mundo porque não é preciso responder apressadamente nada, não é preciso engendrar solução a problema algum nem, ao contrário das fábulas, derrotar dragões à unha. Basta ouvir, para conversar – mas cuidado, porque o corpo presente e a alma ausente elas percebem. Há que se oferecer empatia e coração, todos os sentidos para ouvir-acolher.

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Por isso, quando a mulher chega em casa dizendo que o dia foi péssimo, basta pegá-la pelas mãos e escutar. Se foi demitida, não adianta preparar currículos, acionar amigos nem mostrar mil possibilidades de carreira, muito menos sair batendo de porta em porta para ajudá-la.

O homem gosta de soluções práticas. A mulher não liga para isso, não no primeiro momento da fala, quando quer apenas ser escutada. Um abrigo para as suas palavras, um desabafo, a nossa empatia. É fácil. Mas oferecer empatia é a coisa mais difícil, porque é preciso sair de si e se colocar nos sapatos do outro, escutar sem se precipitar, tomar as dores, emprestar do outro os sentidos.

E basta isso. Conversar com uma mulher é a coisa mais fácil do mundo; apesar disso, impossível«

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