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arte: loro verz

»Recebo, por e-mail, como quem recebe uma propaganda de aumento peniano, congratulações pelo Dia Nacional do Escritor.

Foi comemorado ontem, ao que me informam. Não descubro a razão do dia 25 de julho – curiosamente, logo após o meu próprio aniversário. Pesquiso e só encontro observações genéricas ao lado de frases fofas. A internet é, afinal, 50% pornografia, 40% pores do sol edificantes, 10% aquilo que não encontro, mas gostaria.

Entre uma e outra consideração sobre a beleza da criatura que “com os pés no chão faz a gente voar ao céu”, e outras platitudes diversas, entre um e outro ensaio sobre quem são e como vivem os escritores – e as tartarugas gigantes, que descubro em extinção  –, deprimo.

Há poucos anos, com a onda de popularização de SMS depois ICQ depois MSN depois Orkut, Facebook e que tais, acompanhei os festejos em torno do chamado “renascimento da palavra escrita”, aparentemente em declínio durante a era do rádio/TV. Nunca se escreveu tanto, comentadores comentavam, e, logo, todos se tornaram escritores.

Rapidamente, contudo, o tempo cuidou de zombar dos achados de antanho. A utopia segundo a qual a insistência com que teclávamos (e devorávamos as tecladas alheias)  nos tornaria mais próximos da (boa) literatura se mostrou desapontadora. É como se comemorássemos a diminuição da fome em um dia para no outro descobrirmos que nossa dieta se restringira a apenas e tão somente Big Macs. Quatro ou cinco big macs por dia.

Que maravilha, alguém diria, vendo o copo de 750 ml de refrigerante meio cheio. Eu, claro, ando meio vazio.

Eu meio vazio vi a palavra “escritor”, no Dia Nacional do Escritor, reduzida a um slide de pôr do sol edificante. Vi “escritor” deixar de ser um meio singular de olhar o mundo, como quis Carlos Drummond de Andrade, para se tornar um título ostentatório de youtubers e afins em busca de um outro tipo de status, que a web não confere.

Meu voto para o Dia do Escritor é portanto contrário ao Dia do Escritor. Contrário às felicitações vazias, às platitudes enaltecedoras da fértil imaginação de prosador. Contrário principalmente às entrevistas com escritores, aos talk shows, às feiras literárias em que, como as tartarugas marinhas, a espécie é exibida com graça e espanto.

Isso, por si só, talvez reduzisse a sanha de querer se tornar aquele que escreve sem antes ter lido. Muito. Escritor, pois, não é quem escreve: é quem lê. Lê profissionalmente, com atenção, minúcia, auscultando a música da prosa.

Do contrário, tornam-se arremedos de escritores, beletristas (quando muito), que escrevem frases de impacto, às vezes divertidas, às vezes criativas. Divertidas e criativas como a redação do publicitário – eis o que são.

Escritor é outro bicho, e nesse bicho pulsa uma ferida. O resto é secos e molhados.  

O melhor a fazer no Dia do Escritor portanto não é escrever; nem um e-mail nem um cartão de congratulações a quem é ou parece ser escritor.

O melhor mesmo é ler um livro; silenciosamente, como quem chora de desalento, de desencanto. Como quem tem motivo de pranto.«

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