arte: loro verz

 

»Machuquei a mão de novo, lutando boxe.

Foi a segunda vez neste ano. Na primeira, resisti teimosamente por umas semanas até ser arrastado ao médico, pelo amor e pela dor (quem disse que na vida é uma coisa ou outra, quando estão quase sempre juntas?). O ortopedista solicitou os exames de praxe, que fiz a contragosto, para enfim constatar que um ligamento estava estirado, quase rompido. Quase.

Imobilizei a mão esquerda por alguns meses. Ela, que andava dormente, quedou rija e suplicante. Queria tocar o mundo, queria lembrar de como era tudo antes do incidente, queria mergulhar nas mesmas texturas, nos mesmos aromas, nos mesmos sorrisos e cumplicidades de antes. Queria. Fazê-lo, já não sabia. Estava muito ferida (um machucado invisível, profundo, que me tomou três médicos e duas sessões de tomografia).

A roda do mundo é indiferente aos nossos desejos.

O problema era justamente no polegar, o polegar opositor, que, dizem, diferencia a gente da maioria dos mamíferos. Talvez por isso naqueles três meses de tratamento, com a casa a cada dia mais silenciosa e triste, eu me tenha tornado menos gente – ou menos gentil.

Pedi um remédio qualquer, qualquer coisa que acelerasse o tratamento. O médico apenas disse: Deixe a natureza fazer o seu trabalho. Não havia atalho. Fiz fisioterapia, ganhei confiança lentamente e aos poucos voltei a frequentar a academia.

Não cheguei a ter alta porque não cheguei a retornar ao médico. Fui obrando os exercícios receitados e seguindo adiante. O boxe, enfim, há pouco tempo eu retomei com alguma insegurança. Bastaram três meses para que eu ficasse fora de forma e me abatesse de muito peso, quase retornando ao corpo adolescente.

Na semana passada, machuquei de novo o mesmo dedo, lutando (talvez contra mim mesmo, enquanto o adversário me olhava pacientemente). A vida é luta. Agora está difícil tocar, difícil segurar, mas na maior parte do tempo não desanimo. Talvez o ligamento se tenha rompido. Será? Em algum momento, retornarei ao médico, aos exames, à odiosa máquina de tomografia.

Por mais que a mão lateje, as pessoas já me acham menos abatido. O pior passou, suspiro, e é isso que sempre me dizem. Eu não esperava sentir essa dor, mas, estando dolorido, conheço o tratamento: o tempo, o curso da natureza, bons livros, bons filmes, bons discos. No mais, é assim mesmo: rompimentos são doloridos – até que se liguem, cicatrizem em definitivo.

Seja como for, eu faço o que fazem as pessoas: eu sigo.«

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