arte: loro verz

O tempo passou rápido nestes últimos dias.

Na semana passada todos os meus amigos de Facebook estavam colocando fotos de suas alegres (sempre alegres) infâncias para representá-los em seus perfis virtuais. Overdose de cachinhos loiros, de bochechas fofinhas, de dentes de leite, de cabelos de cuia e olhares angelicais. Foi o jeito de dizerem, na véspera do Dia das Crianças, que também tinham sido crianças – ainda que eventualmente se assemelhem, hoje, a outros bichos.

Eles foram crianças um dia. Tinham a beleza inquebrantável das grandes esperanças. A beleza pura de uma existência absolutamente inútil, absolutamente irresponsável. Uma existência, portanto, de borboleta. (Ou, que seja, de lagarta.) Bonita porque frágil, inefável, sem propósito. Mesmo as crianças mais feias eram perfeitas. Meninos e meninas tão perfeitos que, em realidade, era difícil distinguir um do outro, difícil até de saber quem era quem, a certa altura. Uma massa indistinta de cachinhos e sorrisos.

Mesmo a beleza, eu pensei, pode ser aborrecida. E pensei na raridade de belezas que se renovam. Você sabe? Encontrou alguma? A mãe dizia “beleza rara”. Às vezes era uma ironia, mas às vezes era justamente isso: beleza viva, e não uma caricatura cristalizada em fotografia, academia ou em forminhas de alta costura. Beleza que, em cativeiro, feneceria.

Não aderi à moda da última semana. Mantive repousada sobre a mesa a minha infância, amornando como um chá raro que se prova – e esgota – lentamente. Que tipo de adulto eu seria sem ela? Na dúvida, preservo-a. Aprendi de muita pedrada que o que se ama verdadeiramente precisa ser preservado. O amor é delicado, é privado, é avesso ao compartilhamento de vaidades.

O feriado passou e todos voltaram instantaneamente à vida adulta. Aquilo me chocou. Tantos anos escorridos em poucos dias. Os meninos haviam crescido: tinham barba, cicatrizes, olhos cansados. As meninas era mulheres; não mais princesas.

Aproveitei o marasmo dos dias para reexaminar a minha infância secretamente, sem compartilhá-la. Os meus próprios cachinhos loiros que se acabaram. Meu sorriso muito tímido, o ar discretamente sapeca. O quanto daquilo haveria ainda no homem? Tenho me tornado algo essencialista: acho que a fundação da casa não se altera. Edificamos sobre o terreno, avançamos: paredes, rebocos, acabamentos. Lá no fundo, contudo, invisíveis fundamentos persistem. A mordida do cupim não altera a composição da madeira. Sou a mesma criança quando as luzes se apagam na sala de cinema.

Agora uma segunda infância é a minha filha. Uma infância que não é minha, mas que vivo intensamente – brincando de boneca, comendo porcaria, angustiando-me com provas ou com disputas entre amiguinhas.

Mas ela já está chegando aos dez anos, e à criança mistura-se a futura adolescente. Vivo, portanto, uma segunda infância que também encolhe. Pensei, então, neste Dia das Crianças, que nesta vida serei sempre isso – e nisso talvez seja igual aos amigos virtuais: um colecionador de infâncias. É o que sou e fiz; colecionei, antes de tudo, a infância dos que vieram antes de mim, as infâncias dos meus pais, e dos pais dos meus pais, que tanto me marcaram também.

E colecionei a minha infância.

E colecionarei a infância dos que virão depois – minha filha, meus sobrinhos, meus netos, bisnetos. Até o dia em que o chá esgote ou esfrie e eu forçosamente descubra o que há do outro lado da infância. O que há na infância nenhuma.

Até lá, contudo, continuarei na zona de mistério, rindo às escondidas de uma anedota sem sentido.

E tentando descobrir quem é o anjinho na foto de 1980.