arte: loro verz

Uma coincidência: gostavam das mesmas bandas. Nada extraordinário, e, portanto, nada a pasmar. Não que fossem as bandas da moda – não se tratava de um tiro tão certo como dizer, no seu círculo, nos anos 90, “U2” ou “Legião Urbana”. Não eram nem tão arriscadas nem tão conservadoras, portanto, as apostas sobre a mesa. Dylan, Davis, Lennon.

Talvez a idade, para ser franco, tensionasse mais a corda das improbabilidades. Ela era nova e dançava em ritmos difíceis de prever. Muitas vezes lhe apontaram os dedos, ridentes. Estranha na multidão, suspirava nas coxias.

Tudo no mundo são estranhezas: a superfície de sua pele, o corpo de sua carne e a totalidade das entranhas. Tudo, para quem observa, transcende explicação. Há muitas, infinitas, maneiras de se tornar incomum – a ponto de inviabilizar qualquer normalidade. Ela, talvez, era estranha ao mundo por trair as expectativas alheias. Ele, lunático, por trilhar pontes invisíveis, insensatas.

O reconhecimento da estranheza mútua pode ter sido a segunda coincidência. Talvez tenham se esbarrado na rua – acidente sem razão. Ela revisava mentalmente a coreografia: ta-ta-tarata-tata-ta, saltitando entre crateras lunares. Ele auscultava o desenho de uma folha seca riscando o ar, travando diálogos improváveis.

Nenhum acidente grave. Ninguém foi ao chão, exceto dois pares de olhos tímidos.

Nenhum acidente grave. Nada fora perdido, exceto a fala.

Desculparam-se ao mesmo tempo, mais por educação, mais por timidez, do que por necessidade. Outra coincidência, então. É que iam na mesma direção, e, seguindo em frente, sentiram necessidade de falar – mesmo sendo, ambos, coincidentemente mais afetos a escutar. Foram quatrocentos metros de marcha lenta lado a lado. Suficientes para compararem origens, comentarem a agenda da semana e, enfim, maravilharem-se com as consonâncias de Dylan, Davis e Lennon.

Na encruzilhada em que enfim se separariam, hesitaram. Tudo o mais parou também.

Levou-a a um café que acidentalmente se erguera naquela esquina havia vinte ou trinta anos. Ele gostava do cheiro dos grãos moídos; ela, também. Ela gostava de poesia; ele, também. Amavam cachorros, chuva, a França, filmes, lençóis brancos, fotografia, piano, plantas, praias, Bossa Nova, rum, luz suave, madrugadas frias, chá de hortelã. Ler. Escrever.

Combinaram de trocar correspondências. Gostavam, também, de modas antigas, cartinhas manuscritas, caixinhas de música, roupas esvoaçantes, baladas melancólicas, lareira, montanha, romantismo démodé. Eventualmente, partiram. Voltaram para casa enumerando as coincidências.

Como seria possível, aquilo?

Com quantas coincidências se tece um destino?

Quantos destinos são necessários para armar tamanhas coincidências?

***

Em casa, excitado, atirou o conteúdo da mesa ao chão. Apontou o lápis cuidadosamente e repousou-o sobre a resma de papel alvo. A ponta afiada das suas esperanças.

O lápis sobre o papel: pensamento em palavra, memória em registro, especulação em destino.

Um momento santo, um batismo. A conversão àquela religião de não-coincidências.

Só depois de escrito, murmurou, é que tudo estaria escrito.

Começou a escrever – e então não haveria mais volta. Com as mãos trêmulas apaziguava o corcel indomável de suas esperanças.

Não importavam os números, as métricas, quantidades. Que fossem cem mil ou apenas uma feliz coincidência, que aquilo se arrastasse por cem anos ou por um dia apenas.  

A única sincronia que importava era a dos corações.

Uma única coincidência: basta.

 

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