arte: loro verz

A minha filha nunca me perguntou o que é a internet. Parece bobo, eu sei, mas hoje me dei conta do significado profundo disso.

Eu e meus contemporâneos jamais perguntamos aos nossos pais o que era, efetivamente, um carro. O que era uma geladeira, um fogão, uma televisão. Aqueles objetos, tivéssemos eles em casa ou não, de alguma forma eram parte do nosso dia a dia.

Não perguntávamos o que é o céu, apenas apontávamos a imensidão sobre as nossas cabeças. Queríamos saber por que era azul, do que era feito, onde ele terminava. Mas não, jamais, o que era, efetivamente, um céu. A resposta desde sempre pairava imensa e silenciosa sobre nós.

A internet paira sobre a vida da minha filha como o céu pairou sobre a minha infância. Nos idos de 1990 jogávamos bola nas ruas monótonas de Curitiba. O sol ardia sobre nós, convidando à fruição da tarde. Solenemente regia o ritmo de nossas vidas; não só o despertar e o adormecer mas também o tempo do inverno e o tempo do verão – que, em Curitiba, são estações simultâneas. Ditava o tempo da brincadeira de rua e o da brincadeira de casa. De jogar futebol de meia ou de se esgueirar pelos terrenos baldios em busca de tesouros.

Hoje aos dez anos de idade, Alice já veio ao mundo em banda larga. Consulta o status do céu pela internet. Com os dedos pequenos e ágeis navega por tablets, smartphones, desktops, laptops e qualquer tipo de traquitana tecnológica. A rede paira silenciosa e onipresente como o céu sobre ela. Usa-a para trabalhos escolares, para encontrar desenhos animados, para descobrir letras de canções favoritas e para se comunicar com coleguinhas. Distribui curtidas no Facebook.

Enquanto uns entram, outros saem. Nesta semana um conhecido anunciou que estava abandonando a rede social. Dizia-se cansado do chorume, das opiniões apressadas e tolas, da virulência e da violência associadas ao pseudoanonimato da rede. Dias depois, outro amigo largou a rede. Quer evitar discussões estéreis no seu relacionamento real, e nada melhor do que o Facebook para alimentar disputas inúteis e infindas. Compreendi imediatamente a ambos. No passado, fiz o mesmo.

Ao contrário do céu, a internet às vezes desanima. São toneladas de terabytes de comentários estúpidos, raivosos, fóbicos, paranoicos. São precisos nervos de aço para navegar sem perder a fé no que há de melhor na humanidade – atributos mais fáceis de encontrar em livros do que em telas.

A nova crise existencial dos 30 anos diz respeito a largar ou não largar o Facebook. Outros, mais angustiados, sonham em largar tudo, toda a internet: puxar, simplesmente, os plugues da tomada.

Não faltam motivos para sair, eu sei – e volta e meia o faço. Nos últimos dias foi o barulho em torno de um aplicativo bobo para ranquear homens. (Já opinei sobre o Tinder aqui, e tive preguiça de abordar o Lulu agora. E de falar daquele pseudofeminismo que nivela qualquer discussão pela depressão mais baixa.)

Aos meus amigos, de quem sinto falta, só posso dizer: voltem. A internet, como o céu, tem seus dias nublados. Tem sua escuridão; chuvas e trovões. Mas reserva crianças prodígio, artigos científicos, filmes clássicos, cachorros, gatos, oceanos, lindos experimentos. Um dedo de prosa com quem a gente gosta. Dias de bonança.