» A certeza é a coisa mais perigosa do mundo. Nos programas de auditório, quando perguntam “você tem certeza disso?”, tremo. É tão difícil ter certeza de alguma coisa – e, manifestando-a, tão certo passar por tolo, trocar automóveis por travesseiros, viagens ao redor do mundo por cascas de banana.
O Dia dos Mortos é o dia das certezas. Todos os cadáveres são quimicamente idênticos. A feia, a bonita, a princesa, a iludida. O homem é feito de água. Mais de 90% do organismo é composto por oxigênio, carbono e hidrogênio. O resto é mistério.
Um corpo morto você põe sobre a mesa e escrutina.
Foi a primeira morte que trouxe a primeira certeza. A certeza de que aquele corpo não mais se moveria, que aquele animal não poderia mais cantar, dançar, comer, beber, rir; temer, sonhar.
Se a vida continua em outra parte, de outras formas, não é certo, porque nada da vida é certo. Mas que a morte tudo interrompe, tudo paralisa, é uma certeza.
Pássaros mortos não fogem da gaiola nem podem cantar.
Atravesso o cemitério da Consolação no Dia dos Mortos. As certezas estão sob os túmulos enfeitados. É um punhado de ossos. Já a incerteza está acima da terra, pulsando: uma flor fustigada pelo sol. Lá onde mães e filhos choram, crianças correm, gatos perseguem ratos, ratos buscam abrigo em tocas escondidas sob o entulho. Essa é a beleza do caos, que a nossa narrativa reordena em um cosmo provisório. Nenhuma alma sincera parece muito certa de nada, aqui na superfície do mundo. A dor rapidamente cede espaço à fome; a fome, à saciedade; a saciedade, ao riso.
Então repentinamente eu volto a sofrer. Tudo bem não ter certeza, meu filho. O mundo já tem pessoas demais com certezas demais.
À nossa volta tudo está em constante alquimia. Não é a morte quem devora a vida, muito pelo contrário. A vida devora a vida, a vida devora a morte. Todas as coisas eventualmente morrem e se tornam outras coisas; basta esperar, escutar, ver.
Todas as certezas estão fadadas à sepultura. É importante ter ideias e ideais, é bonito defender os seus princípios. Mas a certeza é a sombra do princípio, a outra margem do precipício. A certeza é a doença da compaixão. É por ela que se mata em vão, que se morre em vão. Afinal, é só questão de tempo até que todas as verdades estejam desmentidas – ou superadas.

Ainda assim, os rapazes estufam seus peitos de pombo para vociferar convicções de capa de revista. Parece seguro atravessar o rio nas costas de um sapo.

As certezas, como os cadáveres, podem ser postas sobre a mesa fria e escrutinadas. O bisturi trêmulo de minhas dúvidas abre-lhes o escalpo, fragmenta-as em centenas de pedaços. A soma das partes nós fingimos convincentemente que representa o todo, embora saibamos que o todo não cabe em nada: muito menos em nossas cabeças tão limitadas.
Viver em dúvida é uma ideia apavorante para a maioria das pessoas, que, preventivamente, apegam-se a certezas: religiosas, cientificas, morais. Mas a vida é mais poesia do que ortodoxia. Acontece nos intervalos das certezas, nas reentrâncias das convicções, nos intervalos do martelo.
Nos buracos de centenas de fechaduras em centenas de portas abertas, semiabertas, fechadas, a vida se desenrola como um filme experimental, sem roteiro, sem legendas, em plano sequência.
A única certeza é a de que estamos vivos neste instante. E isso basta.
Os mortos são 98% água, proteína, gorduras, sais minerais.
Os vivos, 100% mistério.


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