arte: loro verz

»A faxina é um tipo de meditação: coloco as coisas nos seus devidos lugares, rearranjo a decoração, libero espaço e deixo o ar fluir. Arrasto os móveis para limpar a sujeira que se acumula nos cantos invisíveis. Recobro a cor e o brilho originais dos talheres, panelas, porta-retratos, cacarecos. Separo uma mala de roupas e outras peças encostadas para doação.

Ao fim do dia, respiro bem, penso melhor.

A meditação também é um tipo de faxina. Sento-me de olhos fechados e procuro abrir, uma a uma, as caixinhas do pensamento.

De tempos em tempos preciso fazer isso. No turbilhão dos dias, as caixas se misturam. De tempos em tempos preciso escancarar as gavetas dos desejos, fantasias, suposições, esperanças, expectativas, delírios, promessas, planos, programas, memórias e paranoias e conferir o que anda lá dentro.

Não raro por pura confusão deposito a pessoa certa na seção errada, ou o evento errado na gaveta errada, ou qualquer coisa assim. Às vezes, acerto. Mas outras vezes o que eu achava que era plano era expectativa, e o que eu achava que era virtude era defeito.

Pode ser um erro de arquivo ou apenas a evolução natural das coisas. Pode ser que, à primeira vista, eu estivesse tão emocionado ou distraído que catalogasse uma coisa por outra. Acontece, embora não seja mais tão frequente, com o passar dos anos. Com o passar dos anos, o mais comum é que as peças desse museu, sozinhas, como grandes paquidermes caminhando e sacudindo os rabos no calor do verão, mudem de lugar em busca de água fresca.

No meu armazém de memórias e acontecimentos, tudo está vivo. Enquanto durmo, as peças animadas navegam pela autoestrada dos sonhos incessantemente. Assim uma promessa se esvazia e vira delírio. Os planos se desmancham em expectativas que lentamente cedem corpo às fantasias (ou suposições).

O sólido desmancha no ar enquanto o ar se adensa em novas possibilidades, pois nem tudo desmancha. Nuvens de formas difusas podem se solidificar em planos quase concretos e, antes que se perceba claramente, programas já em pleno movimento.

Na minha caixa de possibilidades, todas as coisas estão vivas, portanto tudo está em movimento. Tudo enraíza e frutifica ou se deixa levar pelo vento e dissipa. O que morre, porque os sonhos também morrem, deixa nutrientes para o próximo evento, a próxima grande experiência.

Enquanto medito, reorganizo as etiquetas e dou nome para tudo o que encontro. Respiro. Observo.

Tento dar um nome para tudo o que é possível nominar.«

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