arte: loro verz

Gostaria de oferecer a minha amizade ao rei do camarote, ao sr. Alexander de Almeida. Não para que me levasse ao camarote com ele. Não para que servisse taças da melhor champanhe. Não para que me apresentasse “celebridades” ou meninas de esqueléticas pernas brancas em microvestidos da moda. Não para dar um rolê na sua Ferrari. Não para me gabar das transas nos banheiros das baladas. Não para, enfim, curtir o mundo dos gastos que vão ao infinito. Não.

Gostaria é de levá-lo num boteco da Pompéia, um boteco ótimo em que não há camarote, apenas mesas na calçada. Quando a noite é suave as pessoas ocupam os cantos do bairro em bares assim, com bom chope, boa comida – o caldinho de feijão aqui da esquina é ótimo, Alê –, boa música e bom papo. A gente joga conversa fora. Não toca house, música eletrônica. Às vezes tem MPB. A maioria das garotas veste calça jeans e blusinha. Ninguém sabe distinguir muito bem um Armani, uma Burberry.

Imagino seu receio: ser visto tomando caldinho de feijão. Mas nenhuma foto vai parar no Instagram, Alê. Então, sinceramente, arrisque-se e venha. Não dá muitos likes, mas você pode gostar.

Gostaria de oferecer minha amizade ao rei do camarote, ao sr. Alexander de Almeida, mas não por mim. É que ele me pareceu triste. E vai ficar mais triste ainda agora, que extrapolou o sonho de estar em evidência. Está em evidência no Brasil inteiro, e agora? É preciso muito cuidado, Alê, com aquilo que se deseja. A qualquer momento um velho desejo se realiza. E aí, como vai ser?

Eu poderia te falar dos meus desejos realizados, se você topasse três horas de boteco comigo aqui na Pompéia. Eu te falaria de como algumas das maiores dores, das maiores cicatrizes, provêm de desejos realizados – e não exatamente dos frustrados. Eu te falaria do meu grande amor cinematográfico e de uma musa impossível, falaria de ter me tornado um escritor e de sofrer com tudo isso.

Eu te falaria que as melhores coisas aconteceram por acidente, estavam alheias à dimensão do desejo consciente. O nascimento da minha filha, a descoberta de um grande amigo, a chegada de um cachorrinho (meio obeso, meio vesgo) aqui em casa.

E, no boteco, a gente poderia discutir filosofia de boteco. Eu te falaria de um livro chamado “A Sociedade de Corte” (na balada é toda aquela barulheira e a conversa se limita a duas ou três frases imperativas, como imagino que o sexo se limita a dois ou três movimentos no banheiro). Esse livro diz que o rei é vítima da própria majestade. Eu acho que você entenderia isso melhor do que eu. Entenderia melhor do que eu por que é preciso tomar champanhe mesmo gostando de vodca, Alê: é porque a majestade te obriga a isso.

Mas eu também diria que você pode fugir para a Pompéia, igual num outro clássico, “O Príncipe e o Mendigo”, e deixar um sósia no seu lugar por uns dias. Incautos candidatos a sósias, infelizmente, acharíamos muitos. E te falaria do centenário do Camus, e talvez você me achasse chato, mas no fundo eu estaria apenas dizendo: rebele-se. Nem que a tua revolta seja abrir uma boa vodca importada.

Em geral as redes sociais são deprimentes, mas ler e ver a tua história nos camarotes me deixou um pouco mais satisfeito com a minha vida. Perdoe a sinceridade. Mais de um estudo, aliás, já mostrou, Alê: o multicontato com a vida alheia – editada e reeditada, copiada e colada, embelezada e photoshopada – deprime. Na tela pululam viagens, sorrisos, dinheiro, amor, beleza. Compare com o material bruto da vida comum. Acordar cedo, trabalhar, estudar, sacolejar no ônibus lotado, engolir uma coxinha na hora do almoço e terminar o sábado sozinho diante da TV. Cruel.

Mas eu não bebo a bebida que não quero beber, tenho amigos que me receberam quando eu não tinha mais teto, não me gabo de rapidinhas na balada. Não, não sou como os rottweilers que dirão que você é desprezível, Alê, longe disso. Longe, longe disso. Você é o rei, e, como naquele livro que citei antes, é preciso entender que esse papel tem um peso, um baita peso. O meu papel – porque todo mundo interpreta vários – é apenas mais leve. Bem mais coadjuvante. Dou aulas, escrevo livros, crio filha e cachorro e toco a vida. Acho que ninguém se importará se eu beber vodca ou água de coco, se dançar de Burberry ou de Hering.

Desculpe, acho tudo triste, e por isso ofereço amizade.

O rei é muito só, mesmo cercado por sua corte.

PS.: Alê, você viu o que o Justin Bieber fez, você viu a garota que filmou ele dormindo? O tipo? E viu o mico que o Caio Castro e a Maria Casadevall pagaram em plena novela das oito, brincando de ninjas na Liberdade? Ora, Alê. Não estamos tão mal. Não estamos tão mal.