arte: loro verz

Uma menina me entrega uma flor. É sábado e o parque está lotado. A chuva parou há pouco, e pela grama as crianças correm eufóricas. O sol é suave e distribui as pequenas sombras inquietas em todas as direções. A menina com uma flor corre e cai e rola na terra molhada, encharcando-se de chuva. Depois recolhe a flor com cuidado, como se sua cor vermelho-viva pudesse escorrer, e a entrega para mim.

Entrega-a com reverência. É a flor mais bonita do jardim. Agradeço, sem jeito, enquanto largo a caneta sobre o papel. Está coberto de garranchos. O esboço de um novo romance? Previsões para 2014? Esta crônica? Uma lista de compras para o fim de semana. O poeta tem fome.

Fico realmente tocado pelo gesto da menina com a flor. Um gerânio cor de rosa, com finas bordas brancas em suas pétalas. No coração, hastes arroxeadas. Uma flor bonita é uma flor bonita é uma flor. Levo-a para casa e a acomodo em um copo com água. Salteio duas pedras de gelo; ouvi dizer que assim sua beleza duraria mais.

Mas a beleza passa.

A flor no copo d’água não dura muito. No primeiro dia, todas as vezes em que cruzo o seu caminho eu paro. Olho enternecido para a flor, e a flor me lembra o parque, a menina, alegria, alegria; um dia de domingo. Tudo é bom.

No primeiro dia eu me aproximo da flor e ainda quero sentir o seu cheiro. Procuro um resquício de terra molhada misturado ao seu perfume quase imperceptível. Toco suas pétalas; estão macias.

No segundo dia, a haste enverga sobre o copo. O olho da flor mira o horizonte, e não mais o céu. O perfume já se foi. Não sei de seu toque. Tenho estado muito apressado.

Que flor? É o terceiro dia e esbarro acidentalmente no copo. Ele quase cai. Estava sobre a mesa da sala, mas alguém resolveu por bem acomodá-lo na cozinha. Seu olho triste e cansado mira o chão. Entristeço também. É hora de enterrar a flor. Sua beleza acabou, seu perfume, sua altivez.

A beleza passa.

Toda beleza é um pouco maldição – toda beleza carrega o potencial de sua destruição. O tempo, a vaidade, a soberba, o egocentrismo, o narcisismo. Beleza que se fascina por si mesma. Terrivelmente bela, dizemos de uma bela mulher. Beleza perturbadora tem um belo homem. Uma beleza sem freios pode ser opressiva; a beleza sem arreios intimida. Seduz. Mas também ela passa. Até as paixões passam.

Talvez por isso a beleza ingênua de uma flor seja a mais bonita. A beleza que não se debruça sobre o próprio reflexo nem se encanta por si mesma é generosa. A beleza da menina que corre enlameada e sorri. Simples assim, livre, ampla, sem fronteiras.

A flor feinha no canto do parque persiste. A flor feinha e manchada, sem cor identificável, sem brilho especial. Sem grandes feitos ao léu, sem triunfos. A flor feinha sobrevive. Ninguém quer arrancá-la para si. Ninguém a persegue, deseja, sufoca. Vive. E viver tem a sua própria beleza.

A flor feinha tem perfume ordinário e pétalas manchadas. O caule foi envergado. Talvez tenha sido pisoteada, vida afora. Uma, duas vezes. No entanto, subsiste. Esta é a sua beleza, ainda mais cara.

Ela tem raízes fortes.