arte: loro verz

Fiquei sinceramente tocado pelo rompimento do casal. Deu nas manchetes de toda a parte. Eles eram bonitos, sabe? Como se diz, “formavam um belo casal”. Ela loira, alta, um sorriso deslumbrante. Ele estilo galã moderninho, malhado, também cheio de dentes brancos. Sorri, aparentemente, com seus bons motivos.

Acompanhei o imbróglio todo pela chamada imprensa de celebridades, versão 2.0 da conversa de comadres do interior. Falou-se em “traição”. (Se a prostituição é a profissão mais antiga do mundo, a traição só pode ser a história mais ancestral do Homem – no que obviamente incluo as mulheres – e tema das primeiras novelas de que se tem notícia. Adão há de ter traído Eva. Ou o contrário. E não me refiro à serpente do Paraíso, mas ao que veio depois: o mundo real.

A imprensa de celebridades deve ter surgido logo depois disso, com os primeiros paparazzi a rondar a caverna de Adão. A designação na verdade me intriga, já que não é nem imprensa nem trata de celebridades, mas geralmente de criaturas que conquistaram o vice-campeonato de concursos de bumbum e de zonas afins. Célebre, para mim, é o homem de feitos notáveis.

A minha vizinha é uma senhora doce e dócil de sessenta e poucos anos de idade. Conversamos no elevador, essa modalidade tão paulistana de interação, e ela com o jornal debaixo do braço e lágrimas sob os olhos confidenciou-me baixinho: era um casal tão bonito. Pareciam feitos um para o outro. Caras-metade. Metades da mesma laranja.

(Abrevio ao leitor as metáforas açucaradas que já ouvi por aí, em anos de colecionismo pagão. Tampa da panela, metade da laranja, feijão do arroz, baião-de-dois etc.)

Desci do elevador apressado, como que tomado da súbita emergência de me livrar de todas aquelas meias considerações. Havia imaginado uma cara pela metade. Um busto romano despedaçado. O horror, o horror.

Então lembrei-me do manuscrito encontrado em Buenos Aires. Foi no café Tortoni, na Avenida de Maio, em uma sexta-feira fria e chuvosa que encontrei o manuscrito. Era na verdade um surrado caderninho de capa azul comprado lá na Papelera Palermo, com timbre e tudo, feito artesanalmente. Estava úmido, tinha manchas de café preto, cheirava a cigarro e trazia rabiscos caóticos que me exigiriam toda a experiência de professor universitário para decifração.

Procurei seu dono. Alertei os garçons portenhos. Obviamente, deram de ombros. Levei o caderninho para casa. Nenhuma indicação de autor, apenas uma anotação trêmula na segunda capa: Beatriz.

Foi no manuscrito de Buenos Aires que descobri o que é o amor. E que a metade de uma laranja só serve para fazer meio copo de suco – ainda por cima, aguado. Guardo-o com carinho. E gostaria de recitá-lo agora para aquela bela atriz de coração despedaçado (aliás, minha conterrânea) – se ela me perdoasse a pobre tradução. É como segue:

 *

[ilegível] tive poucas mulheres objetivamente lindas. A beleza-em-si, que tanto atrai e excita, é, de várias virtudes, a mais frágil. Considero ainda a inteligência, a cultura erudita, a retórica envolvente.

A beleza é que mais depressa passa, por enjoo, por cicatrizes, por gravidade.

A grande inteligência traz o fardo da insatisfação perpétua, às vezes um desprezo vaidoso. É a lenha das vaidades. A cultura erudita, no âmbito doméstico, cansa: palco solitário de discursos autoedificantes. A retórica seduz e posterga, fascina e enrola, clama e abafa. Joga o orador numa vida de extremos.

Sobressai-me portanto outro aspecto, quase mítico, a que se pode chamar “valores”. Uma maneira de estar no mundo; de agir, de ponderar, de transformar. Até a virtude passa, mas os valores ficam.

Os valores de atração no meu caso são a generosidade, a disposição para ajudar e transformar, a paciência no seio da coragem, a afetuosidade – sem afeto não há nada – e a implacável capacidade de rir-se de si e de tudo.

E então, sobretudo, o valor de amar. Disposição para amar. O amor, beatriz, mas não como aquele velho jogo de posses ou aquela incessante busca por metades que possam completar metades.

O amor inteireza.

O amor que exige inteirezas.

Soma de dois inteiros. A soma primordial, ilógica, anticartesiana, individual, pela qual se multiplicam potenciais. Somos todos grandes. Mas deixa-me subir nos teus ombros e enxergarei mais longe.

Nos mitos há a figura do criador sem sexo ou gênero, o criador que é homem-mulher (uma inteireza, portanto). Mas os homens, vira-latas dos deuses, tornaram-se apenas metades. No sexo, quando casal-em-um, resgata-se algo dessa divindade. Corremos incessantemente atrás do nosso resquício de divindade. Quando éramos inteiros.

Bobagem, ó beatriz, mas que bobagem. Somos inteiros, já. [ilegível] o companheiro agrega sim virtudes e descansos a nós. Não se trata, contudo, de uma necessidade. O amor não tem essa tirania. Não há um coração batendo fora do teu corpo, amor. Nem homem-mulher são chave de céu nenhum.

Eu comecei esta história, neste café, nesta sexta-feira chuvosa, julgando o amor como resultado de uma busca. Que o amor era, portanto, um encontro – prêmio que os solitários almejam. Mas que engano!

O amor não é encontro nem prêmio nem reconhecimento de si no outro. O amor, esse acaso, é afinal o reconhecimento de sua própria inutilidade. Sua beleza é saber-se irrelevante. O amor, minha amada, é essa irrelevância de te ver, de pernoitar em ti; deitar-me ao teu lado até o último suspiro (e perder horas comparando-te a um passarinho).

Deixo que te vás. Para que serve, afinal, aquele quadro de Diego Rivera que vimos na quarta-feira, aquele dia de primavera, aquele passeio no Tigre, aquele entardecer no parque, as tuas saias estampadas? Para quê?