arte: loro verz

»Eu estava na bad. Mal. Na pior. Péssimo. Dois anos antes, enfrentara um divórcio. Agora, um relacionamento intenso com uma garota linda, brilhante, sedutora e completamente fora da casinha do ciúme tolerável. A relação evoluía rapidamente para o fim, à medida que todos os meus passos e suspiros e pensamentos viravam tema de discussões longuíssimas, cheias de farpas.

Ao mesmo tempo que aquilo me indignava e exauria, também me fascinava, é claro. Como alguém poderia ter tanto interesse por mim? Como alguém poderia me “amar” tanto? 

Levei muitas vezes essa pauta confusa e trágica ao divã. Um dia, já encaminhado ao término, tentei consolar-me diante do psicoterapeuta: ao menos fica a lição, não é mesmo? A gente se apaixona, fracassa, mas aprende alguma coisa disso, e evolui.

Ele sorriu discretamente. Homem de poucas palavras, fazia-me notar com especial atenção qualquer movimento seu. Insisti: você não acha?

– O que você acha? –, devolveu.

Desenvolvi a ideia. Em tudo na vida, com algum tempo de prática e reflexão, a gente se aprimora. Quem pratica natação, quem estuda idiomas, quem assa bolos de chocolate. Por que não seria assim com quem ama? Não é assim com o amor?

Ele sorriu novamente. Desta vez, contudo, acompanhou o gesto de um breve comentário: “Pela minha experiência, acho que não é assim com o amor. Até os mais velhinhos, quando se apaixonam, agem como adolescentes”.

Saí do consultório um tanto desolado, um tanto desafiado a provar o contrário. EU havia aprendido a lição. Jamais repetiria os mesmos erros. O próximo amor, se houvesse um próximo amor, seria maduro e responsável: um amor de respeito e gentileza, afeto e sensualidade. Sobretudo, um amor de indivíduos que não se perdem nem se deixam perder.

*

Isso foi há muitos anos. Desde então, tive mais de uma oportunidade de comprovar a teoria do velho sábio. É claro que ele estava certo (ao menos até agora, não consegui provar o contrário). Dez anos depois ainda vejo, no espelho e ao redor, sofrimentos e expectativas adolescentes repetirem-se incessantemente, como as quatro estações.

E eu, que jurei aprender a lição, até aprendi (sim!). Quando sento, medito, converso, escrevo, aconselho, leio, tenho certeza de que aprendi (sim!). Mas: basta a miúda piscar um olho, mover os lábios, esticar um dedo, balançar os cabelos na direção correta, na minha direção, para que a fortaleza do entendimento fique novamente deserta, sem um neurônio sequer alerta.

Assim aos 30 como aos 15 anos de idade. Assim sempre, permanentemente: o velho coração apaixonado, revirginado, bate ansioso pela próxima ilusão.«

_____________________________________________

Chegou até aqui? Aproveite e siga Males Crônicos no Facebook.

Facebook do autor.

Twitter do autor.

_____________________________________________