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arte: loro verz

» O semestre letivo chega ao fim; vem o inverno. Silenciosa e lentamente, milhares de professores apagam suas lousas. Onde se viam equações, datas, fórmulas, citações, já não se vê nada. Onde se viam certezas, apenas uma nuvem de giz e pó. A vida volta a ser uma tela em branco.

Agora, o que ficou daquilo tudo? De todas as fórmulas, de todas as frases feitas. Das datas de todas as guerras, das capitais de todos os países, o que fica? As coisas urgentes e urgentíssimas, importantes e importantíssimas são a lenha do tempo, que depura todas as apostilas e livros e fórmulas e descobertas na sua fornalha infinita. O Beagle me observava estudar, ler, reler, grifar, decorar, falar sozinho – alguém disse que ler em voz alta era bom para a memorização. Os meus dias e os dias do cachorro tinham a mesma duração. Exceto que os meus o tempo oprimia: logo viria o vestibular.

Agora já faz anos que não vem vestibular, não vem prova final nem nada. Das classes de física hoje me sobraram explicações sobre calor, trocas de temperatura. Parábolas e movimentos. Um professor de cabelo engraçado que me elogiava a dedicação tranquila.

Da química me restou quase nada. O alfabeto que se recombinava no quadro, a veneração ao Carbono. Estranhas fórmulas. Remédios. Venenos. Fumaça. Frases que eu decorava para lembrar de certos processos químicos. Bico de pato é gostoso frito.

Da matemática guardei as quatro operações básicas e a regra de três, que me socorria sempre. Alguma coisa sobre o caos, as probabilidades, a impossibilidade. A prova real. Uma sigla petulante: CQD, conforme queríamos demonstrar, que de resto nunca consegui aplicar na vida.

Da história restaram algumas poucas datas, algumas anedotas, curiosidades bélicas. No mais das vezes gostava de saber dos perdedores das grandes guerras. A história dos vencidos, que não estava nos livros, se desenrolava à minha frente – nos bancos da praça 29 de Março dormiam mendigos.

Esqueci tanto, esqueço tudo. Você não? Mesmo da literatura, que amava, lembro pouco. Não lembro de palavras, gestos tramas, só de sensações. Um livro frio ou quente, borboletas no estômago, vertigens, espantos. Montes de surpresas, reviravoltas, enigmas. Nas melhores narrativas não havia CDQ. Nada era demonstrável, senão nossa ignorância e nossa imperfeição. Nada se fechava em um quadrado perfeito. A leitura era uma superposição de espirais que iam se expandindo até o limite da nossa compreensão. Sucessão de rabiscos e rascunhos, ensaios, tentativas.

Como a vida. As conspirações dos meninos, os flertes com as meninas, as ameaças veladas, as paixões disfarçadas, os conflitos. Nas aulas os professores aparentavam a certeza de tudo, todas as respostas desimportantes da vida eles davam. A capital do Sri Lanka, a biografia de Bhaskara

Na sala tínhamos que ter certeza de tudo. Fomos crescendo acostumados a isso. É preciso estar certo. Você está certo disso? Assinale a alternativa verdadeira. Não sei. Agora a falsa. Não sei. Aos poucos foi se disseminando por toda a parte essa cultura de certezas –  e eu incerto, ainda. Isso é isso. Aquilo é aquilo. Uma pedra é uma pedra é uma pedra. Pra que serve uma pedra? Para apedrejar para amolar para sustentar para conter. E a pedra no rim? E a pedra de toque? E a pedra no meio do caminho, pra quê?

Quem gosta de ter certeza não gosta da vida, que bagunça tudo, que é toda torta e incerta.   

Passei no vestibular, segui em frente. Aprendi a duras penas a esquecer certezas e confiar nos sentidos. Fui reaprendendo a cada dia uma lição, vivendo, ouvindo, lendo.

A escola ensina muitas coisas. Ensina que tudo o que parece ensinar, passa. Física, química, gramática.

Mas o que não parece ensinar, aquilo de que você não dá conta, fica: a delicadeza de um momento, a gentileza de um olhar, a palpitação de um toque, a riqueza do silêncio, o constrangimento da exposição, o fracasso, o sucesso, o medo, a vergonha. Tudo o que não cabe na lousa, a escola ensina. «

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