arte: loro verz

»Só podia ser no Brasil. Só podia ser o Brasil.

Perdi a conta de quantas vezes ouvi a explicação totalizadora: coisas do Brasil. Desde pequeno. Em inúmeras ocasiões, apenas assenti, por preguiça ou incapacidade. Sim, são coisas do Brasil – como a jabuticaba.

Mas a jabuticaba, fruto doce, exótico, que nasce colado ao tronco, não existe apenas no Brasil. Dadas as condições certas de luz, umidade e temperatura, a planta cresce. Por isso há jabuticabas argentinas, mexicanas e até em Londres, no jardim botânico. Em qualquer lugar do mundo poderá brilhar, distintamente, sua excelência a jabuticabeira.

Quando as pessoas falam “só no Brasil”, contudo, não estão a falar de jabuticabas. Eu sei o que querem dizer. Querem dizer que no Brasil há um tipo especial de corrupção, de malandragem, de jeitinho. Só o brasileiro dribla assim as regras para privilegiar a si e aos seus amigos, só o brasileiro é cordial: age movido pelo coração. No fundo, é um animal. Nosso vira-latismo vira batismo de vira-lata: desde o nascimento o brasileiro aprende que existe algo de especialmente mau aqui. Nunca em si próprio, a pessoa física, mas com certeza no restante da gente, o povo brasileiro.

Há dois anos morando fora do Brasil, ainda estou à procura da particularidade brasileira. Todos os dias leio denúncias de corrupção nas manchetes de jornal. Não falam de Brasil. Ouço, nas conversas de rua, o desprezo à roubalheira. São estrangeiros. Percebo, sutilmente, no dia a dia, o jeitinho que se infiltra nas instituições. Aos amigos, tudo. Aos inimigos, a lei. Nenhum colega ali é brasileiro – muito menos Maquiavel.

Ando à procura do típico brasileiro. A característica do nosso DNA que explique por que lockdown não funcionaria no Brasil, por que qualquer medida disciplinadora seria impossível de cumprir. O calor? Os trópicos? O samba? A mulata? Não acho nada. No Brasil tem lei que não pega, disseram-me. Mas na Itália também. A corrupção do ex-primeiro ministro de Portugal está em todas as manchetes há semanas. O compadrio dos ingleses é notório. Americano adora levar vantagem em tudo. A lista não tem fim.

Quem sabe no fim sejamos todos muito humanos, muito cheios de vícios e virtudes. Capazes de quase tudo, conforme as condições se apresentem. O que vejo de mais particular no Brasil, hoje, é a mania de achar que o Brasil é particular. Que tem algo na água brasileira que torna seu povo especialmente singular.

Não tem. Nada especial. A singularidade do brasileiro é a de viver no Brasil. É sua cultura, e não sua genética. E a cultura é construída todos os dias, dentro e fora das instituições: na rua, na chuva, na fazenda.

***

Olhando assim, de longe, o que de mais notório vejo no Brasil é a onipresente desigualdade social. Tão perto que invisível, tão comum que natural. Vi-a de perto por mais de trinta anos. Agora, vejo-a de longe e volto a me chocar. O que há com um Brasil que aceita a manutenção de subbrasileiros nos quartinhos de suas próprias casas e nas periferias das grandes cidades? Tão próximos e tão distantes?

Não, isso também não é único do Brasil, mas ajuda a entender por que somos como somos.

Ter sido o último país a abolir a escravidão nas Américas (quiçá no Ocidente), e ainda por cima de forma incompleta, teve seu preço. Não é o jeitinho nem a malandragem nem a dificuldade de obedecer a regras nem o benefício próprio que caracterizam o Brasil – muito menos os políticos corruptos. Tudo isso é mais comum que banana no mercado.

São mais de três séculos de violentíssima e sádica escravidão. Mais da metade da nossa história.

Assim, aceitamos com relativa facilidade a existência da violência, em especial aquela praticada contra os escravizados e seus herdeiros.

Ninguém é coveiro para as centenas de milhares de vítimas por aí.«

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