ano novo

arte: loro verz

trilha sonora: on ne change pas.

» Como todas as criaturas, sempre temi términos – embora enxergasse inesgotáveis virtudes estéticas num rompimento melancólico ao som de On ne change pas. A beleza não raro emerge de minúsculas, invisíveis desgraças, como manchar a roupa de baile ou atrasar-se para um encontro. Términos também.

No balanço das coisas, se você tem uma alma vadia (como a minha), pode se comover com a delicadeza de um fim tragicamente honesto, infinitamente triste. Acertos de contas têm a sua beleza em dias chuvosos, quando cada um segue seu caminho, esforçando-se para não olhar para trás enquanto cicatrizes salgam a face.

Eu pareço um panda, ela riu inesperadamente por um segundo, e como negar que era bela com a palidez do rosto realçada pela maquiagem que escorria?

Então olhou para baixo, em busca de qualquer coisa que já não estava lá. Nossas mãos?

Fim. Passamos pela vida colecionando lembranças. As pessoas passam e, como guias, nos apontam refúgios. Os refúgios, bem preservados, ficam.

O término realmente triste é o que se arrasta como cadáver ambulante: semitérmino, pseudotérmino, término da teima, da recusa. Teatro de moribundos pela casa, pelas ruas.

Todas as coisas vivas estão em movimento, e, quando algo bloqueia a correnteza, o término pode ser a engenharia necessária para o renascimento. Impulso assustador em todas as direções ao mesmo tempo. Uma tempestade de possibilidades, quase sufocante, como o vento durante uma queda livre.

 ***

Com o fim de ano é o mesmo. Nunca fui fã dessas festas – especialmente do Réveillon, com sua pavorosa teima de cronometrar o tempo da felicidade.

Os finais de ano para mim só teriam algo dessa tristeza fotogênica, desse enquadramento francês, se nos permitíssemos carpir o corpo com sinceridade.

Mas estamos ocupados demais com metas, telefonemas,  cumprimentos e acenos. Contas. Compras. Curtidas. Nossos olhos e mentes estão no Ano Novo, violentamente no Ano Novo, enquanto o coração, esse músculo arcaico, essa bomba medieval, olha para trás e (ainda) lamenta.

Não é ainda a hora do início. É, antes, a hora do término.

Para iniciar uns sonhos é preciso encerrar outros. Antes de escolher a roupa branca do Réveillon estou às voltas com o funeral do Ano Velho. Enquanto todos olham para os próprios pés, atropelando-se nas ruas, nos shoppings, nas gares superlotadas, preparo minha despedida.

Relembro todos os momentos dessa relação bonita e doída e, num dia de chuva, tempestade de verão, saio à rua para me confessar ao ano que se encerra. Tudo foi belo. Dores, paixões. Algo do amor ficou. A memória depura tudo, e isso é bom – desde que nos mantenhamos resolutos.

No mais das vezes, o Ano Velho não discute. Encharcado pela noite, melancólico e vagabundo, esquecido já da maioria das gentes, aquiesce. Precisamos terminar.

Mas às vezes o Ano Velho reluta, esperneia. Eu posso mudar, um certo 2010 me disse, on ne change pas, eu retruquei, e com um suspiro desesperançoso bati a porta do carro. Apressei a caminhada rumo à porta.

O término é belo porque é um Davi contra Golias, então abro-lhe os braços feito o pai. Uma coceira de início invisível, intermitente. Um cisco que surge no passar das horas e vai, lentamente, arranhando a represa dos ressentimentos. No fim, o fim vence, sempre.

Para que o Novo triunfe, assim deve ser.

***

O que mais me aborrece na festa do Ano Novo é a contagem regressiva dos dez segundos para ser feliz. Às vezes me atrapalho na despedida do Velho – tenho uma dificuldade tremenda de me despedir – e estou totalmente sem cabeça para em dez segundos recompor o fôlego e pular alegremente.

Às vezes preciso de mais do que dez segundos.

Às vezes, me custa um mundo.

Então me perguntam o que desejo e me desejam muitas coisas boas. Alguns são genéricos: amor, saúde, paz, sucesso. Alguns, específicos: namorar uma bailarina, ganhar o concurso 1.699 da Mega Sena, escrever um livro intitulado Espelho no Escuro.

O ano nem começou, nem enterrei ainda o meu Velho, e já estou afundado em desejos – meus e de terceiros. E se quisesse apenas viver?

***

De minha parte, desejo que seu término com o Ano Velho seja honesto e limpo. Sem adiamentos, sem cenas, sem dramas esquisitos. Assim, fica o que for mais bonito. E fica para sempre, intocado pelo veneno do tédio, do ódio, do ciúme.

No mais, desejo um Ano Novo pleno.

Poucos desejos.

Infindos acontecimentos. «

 

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