arte: loro verz

»Será que ela sabe?

Eu acho que sim. Quantas vezes me flagrou mesmerizado, flutuando mansamente no quarto, como um astronauta perdido no universo escuro dos seus olhos? Sorrindo como quem percebe algo incrível; ao mesmo tempo, incapaz de expressá-lo.

De volta à terra, tenho praticado os mergulhos profundos, a respiração lenta e ritmada. A apneia, como chamam os mergulhadores. O mergulho livre. Sou um astronauta de areia e sal.

*

Um dos filmes que mais me tocaram durante a infância é justamente sobre isso. “Imensidão Azul”. Adorei especialmente as cenas deslumbrantes (e algo aflitivas) de mergulho livre no mar Egeu.

Simpatizei de imediato com o Jean Reno. Pensei: eu quero ser assim. Meio durão, meio misterioso, cheio de dor e glória.

Bem, a verdade é que estou longe de ser um Jean Reno em sua dor e glória, mas lembrei desse filme hoje, mais de vinte anos depois. Quis revê-lo – talvez porque me sentisse daquele jeito, quando a via: saltando dos penhascos agrestes à imensidão azul.

Quando nos cruzamos pela última vez, ela sorria e falava sem parar, talvez com medo de que um segundo de silêncio colocasse toda a nossa compostura a perder. Eu procurava uma fresta entre o celular, que ela empunhava com as duas mãos, e o seu rosto, meu poço de apneia. Enquanto isso ela gesticulava com aquele jeito apressado e tenso, ao mesmo tempo melancólica e impossivelmente feliz, tentando afastar a sombra já presente em tudo.

Na sombra, à sombra, eu curtia a sombra.  Que se havia de fazer? Se apenas sombra eu teria, que fosse a sombra de grandes templos, de grandes dias.

Foram grandes templos, grandes dias.

Tenho treinado a respiração para mergulhar e avançar cada vez mais fundo e sem medo. Não é fácil. Ela desvia os olhos e escapam minúsculas bolhas de ar do meu nariz. Vou me afogar? Tudo bem, desde que não seja em colherinhas de chá, penso.

Tudo bem, prossigo mais e mais ao fundo. Quem sabe haja um poço de ar, dentro dela? Quem sabe chegue ao seu pulmão e respiremos os dois o mesmo ar? Nunca havia ido tão longe. Nunca havia chegado tão perto: ela percebe meu movimento e sorri com tanta ternura que chego a corar.

Ela sabe, embora se finja de desentendida. E foge: talvez prefira a temperatura da superfície. Normal, as pessoas são assim mesmo, reticentes – pra não dizer medrosas. Emerjo e respiro. Reinicio os treinos. Haverá outros poços, outros olhos, outros tempos e templos.

Persisto, insisto, me fortaleço. Estou treinando a respiração e o coração, o sangue e os músculos, para mergulhar ainda mais fundo, chegar ao leito do mar Egeu.«

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