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arte: loro verz

» Aprender a gente aprende de diversas maneiras. Matemática a gente aprende pelo exercício, pela repetição. Setecentas vezes a tabuada do oito bastam para saber 7 x 8 sem esforço. Com treino, isso se resolve e avançamos para problemas muito mais complexos. 

A escrever a gente aprende lendo, principalmente. Quando um aluno me diz que quer ser jornalista porque adora escrever, mas nunca lhe ocorre que ler é mais importante do que escrever, e que escutar é ter mais a dizer, desconfio. Às vezes acontece inclusive de me dizerem: adoro escrever, mas para ler não tenho paciência. Adora escrever mal, portanto, e quem sabe isso lhe satisfaça.

Aprender, em geral, a gente aprende exercitando e aprende lendo. Aprende, em outras palavras, pela experiência e pelo estudo. E amar, como se aprende? Amando, dirá o poeta. Mas ao ler “Amar se Aprende Amando”, do sábio Drummond, estamos lendo e estudando também. O poeta é malandro, diz e mostra, toca. Mas onde está Drummond hoje em dia?

Nas telas, nos celulares, em toda parte e em lugar algum, multifragmentado em slides e memes de mau gosto.

Então como se aprende a amar hoje, em que romances são substituídos por livros de colorir, em que telas substituem gente? 

O Dia dos Namorados se aproxima. Perambulo, lanterna em punho, em busca dos amantes do novo século. Nos restaurantes, observo amantes flertarem apaixonadamente, mas com as telas dos seus celulares. Bastam cinco minutos de conversa até que se entediem. Observo como perdemos a capacidade de nos relacionarmos frente a frente, engolindo silêncios, estudando fronteiras, cruzando olhares, ensaiando gestos: a pressão exata para um ligeiro toque.

Mas como uma única pessoa, por mais que amada, pode competir com o universo inteiro? Como uma única pessoa pode ser mais interessante do que todos os cães e gatos, todas as celebridades, todos os bebês, todas as canções, todos os nascimentos e mortes, toda a fauna e flora da Terra? Não pode. É claro que não pode.

O amor romântico, como a privacidade, é uma ideia ultrapassada. O amor desconectado – cais do porto, serra e vinho, chocolate quente, catar conchinhas – sobrevive mal e mal em cativeiros sem telefonia, entre uns poucos matutos selvagens.

Que pena. Eu, que aprendi sobre amantes nos livros, acho que os amores ficam mais lindos quando impressos e sentidos. Sob a luz azul da tecnologia, tornam-se repulsivos. Sua pele engrossa, seus lábios entortam, seus poros entopem. Uma nuvem de sebo paira sobre rostos e mãos. Tornam-se escorregadios, os amantes que amam seus celulares, deslizando dedos cá e lá – não em reentrâncias, saliências, pele, mas em vidro plano.

Não é apenas que vivem com olhos nos celulares. É que, quando falam, falam o que lhes ditam os celulares. Você viu o vídeo tal? Olha só o que fulano compartilhou.

O beijo de olhos abertos na tela. Depois do sexo, a selfie – ou vice-versa.

Antigamente os romances ensinavam o amor, que era difícil de observar (avis rara, d’alcovas). Hoje, quando os romances se tornam públicos, paradoxalmente ficam menos visíveis. Carícias de internet, likes, matches.

O romance, como os pandas, carece de espaço no mundo. Seu alimento escasseia, e então morre. Como os pandas, foge ao menor ruído, ao ruído das redes, das quizumbas, dos frustrados fiscais do desejo alheio. Qualquer forma de amar já é um pouquinho de saúde, já é um descanso na loucura.

Mas, também como os pandas, sobrevive. Avistei um casal no fim do dia, no banco de praça, trocando carinhos desconectados, uma hora inteira sem celulares. As mãos dele, livres, avançavam para longe das telas, invisíveis. Valente como um cavaleiro contra dragões e moinhos. «

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