arte: loro verz

A maior ameaça à diplomacia nesta década não virá dos wikileaks nem da espionagem americana. Não virá de um ditador nuclear de baixa estatura ou de uma erupção do Eyjafjallajökull. Nada disso. A maior ameaça à paz entre os povos – e, sobretudo, entre os casais – está logo aí, no seu bolso.

Morreremos todos por culpa dos celulares.

Não, não falo da radiação que, segundo uns, provoca câncer. (Segundo outros, tudo provoca câncer, sobretudo viver. Então esqueçamos o câncer por ora.)

O verdadeiro mal, bem o sei, é o ardiloso recurso de autocompletar palavras em comunicadores eletrônicos.

Ministros tuítam durante reuniões importantes. Astros do cinema e da música influenciam milhões de seguidores. Divas hollywoodianas atam, desatam e reatam romances por SMS. Professores orientam trabalhos de conclusão de curso, dissertações, teses: tudo por WhatsApp e que tais. Amigos, paqueras: todos batem papo, marcam encontros, colam nas provas e discutem os rumos da humanidade pelas teclas de um celular.

[Falar cara a cara, de repente, ficou bem fora de moda.]

Mas eis que, no meio daquela mensagem crucial, de cujo entendimento depende o rumo da humanidade – ou do seu sábado à noite, o que dá rigorosamente na mesma – sobrevém o autocompletar. Infalível como Bruce Lee.

Não trato, aqui, do singelo erro de digitação. Isso não. O erro de digitação, pobre coitado, é um ancestral simpático e quase inócuo do autocompletar. Todos achamos um erro de digitação perdoável e, até, simpático, hoje em dia. Engano infantil, pirraça de QWERTY. Sem drama, sem grandes prejuízos. Inconsequente. Um beliscão, apenas, nas orelhas.

Mas o seu primo 2.0, o autocompletar, é tiro à queima-roupa. Sem sutileza. Choca.  Imagino já diplomatas americanos, franceses, brasileiros, em um futuro que pode ser agora, comunicando-se por iPhone, Blackberry e similares por vir. Tudo corre muito bem, cordialmente, até que: pai vira pau, cara vira vara, deus vira fria, sou vira sei, fofa vira foda, vira vira cura e por aí vai, numa lista infinda de combinações esdrúxulas (em qualquer idioma, como se vê aqui), sem lógica aparente.

Por isso, atenção. Desative-o antes que seja tarde. E não apenas nos comunicadores, mas também no preenchimento de endereços de email – afinal, quem nunca mandou uma íntima e constrangedora mensagem para um homônimo quase desconhecido? Desligue tudo. [A menos que queira arriscar e trocar mensagens eróticas aleatórias, ou brincar de poeta concreto com seus colegas de trabalho.]

O autocompletar é, hoje, a maior ameaça à paz mundial.

É preciso detê-lo antes que o serviço esteja completo.