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arte: loro verz

» Quando eu era menino, pensava como menino, sentia e falava como menino.

E lembro do tédio que era o Carnaval, quando a família, em busca de tranquilidade, se fechava no campo. Como todo adolescente, era avesso à monotonia do cotidiano besta: as manhãs lentamente se espraiando no horizonte, as tardes modorrentas e quentes, as noites abafadas e silenciosas. Como todo adolescente, odiava a tranquilidade.

Não era a paisagem em si; a natureza sempre me encantou. O pulsar de seu amor bruto, imperscrutável, quase indiferente, palpitando vigorosamente nas montanhas, oceanos e matas. O chamado da natureza selvagem.

Incomodava o arrastar do tempo, e não a pujança da natureza, que fazia os dedos tamborilarem na mesa, impacientes. O tempo, que vacilava em lugares esquecidos pelo homem.

Os anos passaram, a vida acelerou. Quando cheguei à idade adulta deixei para trás as atitudes próprias das crianças. E logo, mais cedo do que imaginava, passei a cobiçar o tédio perdido; cobiçar, na verdade, a possibilidade de um tempo mais lento, que se abrisse a todas as possibilidades.

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O tempo na cidadezinha se abre ao futebol, à hortinha, ao churrasco, ao namoro atrás da igreja, ao bar e à cerveja, às caminhadas, às leituras, ao pensamento vadio. Mesmo que nada aconteça, ou por causa disso, tudo acontece em potência. Tudo é potencialmente possível, faltando apenas a disposição para atualizar os planos, corporificá-los.

Em São Paulo, o tempo confinado a cinquenta metros quadrados simultaneamente comprime e acelera. As horas escorrem entre os dedos: não há tempo para nada em São Paulo.

Tudo acontece simultaneamente na cidade: então, parece não haver tempo para mais nada. 

Enquanto no campo nada acontece e tudo pode acontecer, é como se na capital tudo já acontecesse e paradoxalmente murchassem nossas possibilidades de fazer algo novo.

Caminho no parque e volto para casa. De repente, o dia já acabou. Ligamos a TV, uma leitura rápida e dormimos. Acordamos tarde. Há muito acontecendo, mas paradoxalmente a potência de ação se esvazia: ou masp ou ibirapuera, ou amigos ou família, ou estudo ou bar, ou caminhar ou fazer compras. Com sorte, esprememos duas atividades no mesmo dia, mas já resultamos exaustos.

Tudo muito grande, muito vasto. Muita energia drenada por indefinições; trânsito, multidão.

O Carnaval não volta. É outro. Também não volta a meninice.

Mas se ao menos pudéssemos descomprimir o tempo, convidá-lo a jogar bola no campinho, sorrir. Se pudéssemos abrir de novo seus braços sisudos para que nos oferecessem a potência de todas as coisas. «

 

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