dengue

arte: loro verz

» Os sintomas foram se acumulando rapidamente. No intervalo de dois ou três dias, estavam todos lá: cansaço, depois cansaço extremo. Moleza, fraqueza. Inapetência. Enxaqueca em grau até então desconhecido (pode respirar mais baixo, por favor?) – e já não lembrava nem o que havia almoçado horas antes. Enjoos. Nas semanas anteriores, a dor na coluna havia me levado duas vezes ao PS Ortopédico. [Primeiro foram os anti-inflamatórios, depois os analgésicos, depois as bolsas térmicas, depois acupuntura, depois RPG e então, enfim, admitamos: só Deus.] Mas só quando surgiu a febre alta, repentina, instantânea, suspeitei realmente.

Corri ao médico da família. Quero dizer, o Google, porque na minha geração ninguém mais tem médico da família, infelizmente. Imagino o médico da família como um senhor grisalho, com voz muito grave e serena, às vezes bonachão – a intimidade de décadas com a família produziria esses efeitos – e fazendo piadas infames sobre pavê e ter me visto de fraldas. O médico da família como uma espécie de xamã da tribo das famílias desorientadas, ou seja, todas elas, prestando consultoria não apenas da saúde física mais trivial, mas também cuidando dos aspectos emocional, sexual, espiritual. “Isso aí é amor.” “Coma uma porção de mamão com folha de hortelã.” “Envie umas flores bonitas para ela”. “Reza toda noite que passa.” “A vida tem seu jeito de desarrumar e depois pôr tudo no lugar, meu filho.” Um pajé de mão firme e receitas mágicas.

Mas o pajé das receitas mágicas, mestre de todas as respostas, conselheiro emocional, sexual e espiritual, hoje, no meu mundo, é o Google. Um pajé que ecoa a voz de cinco bilhões de pajés, de todas as crenças, cores, partes do mundo. Digito apenas uma palavra no buscador – buscador sou eu, torto e confuso; ele é um encontrador – e o Google me sussurra o resto da frase, formula a dúvida que eu nem saberia elaborar. Escrevi “sintomas”. O site sugeriu “sintomas da dengue”, “sintomas de gravidez” e “sintomas de depressão”. Batata. Era dengue.

Fui acometido por uma certeza fria de que era dengue. A dengue daria sentido a tudo, ao cansaço, à insatisfação, à moleza, à inapetência. À vida, nestes dias. Era dengue. Preparei as malas para ir ao hospital e decretar triunfalmente: estou com dengue. Meus amigos tiveram dengue. Colegas de trabalho tiveram dengue. Matei um mosquito de listras brancas dentro do meu carro esses dias. Tenho todos os sintomas do Google, digo, da dengue, portanto é saber qual tipo e se vou sobreviver. O médico contestou. Fez-me pagar um exame particular, já que os planos de saúde já não cobrem mais testes de dengue – como se sabe, servem para todas as coisas de que não precisamos.

Paguei para ver.

Não era dengue. Fiquei desconcertado. O rosário que daria sentido aos meus sintomas – e a mais do que isso, aos meus dias – se desfazia.

Não era dengue, era a vida.

Aquela doença que me andava deprimindo, exaurindo, que na quinta-feira às sete horas da noite engolfou meu corpo na cama como um oceano de algodão – era a vida.

Era a vida, que também derruba. A vida, que não é transmitida por mosquitos, mas por mães, e da qual a gente só lembra assim, de vez em quando, quando um mosquito inocula um falso vírus, quando uma dor trava a coluna, quando alguém próximo morre.

A vida, que quando ignorada volta-se contra nós de mansinho, com lábios de Monalisa, enfraquecendo pernas e pés, costas e ombros, turvando a vista e ricocheteando furiosamente nas paredes do crânio até que nos apercebamos dela. A vida, cachorro que morde a mão, cachorro cuja indignação é inexplicável até que notada.

A vida de minhas retinas tão fatigadas. A vida de acordar muito cedo, estender-se na rua até tarde, culpar-se pela pouca atenção à família, à mulher, ao cachorro, às crianças e velhos que morrem sem vida; ao corpo, ao sono, à cabeça. A vida de São Paulo, Brasil, classe média, escritor fatigado de 34 anos.

Eu não sei se fez sol ou se choveu, ontem à tarde. Não lembro o que comi no almoço. Tenho 16 relatórios para esta semana.

A vida é como a dengue. «

 

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