arte: loro verz

A vida inteira fui o primeiro em tudo, ao menos no quesito idade. Em todos os lugares por onde passei, costumava ser o mais novo. O que antes leu, o que antes escreveu, o que antes publicou, o estagiário mais novo, o repórter mais novo, o editor mais novo, o professor mais novo, o doutor mais novo. Toda a Curitiba tremia diante de minha: precocidade.

Fui novo para o primeiro amor, fui novo para a primeira transa, fui pai precocemente (aos 23 anos): o mais novo da turma. Primeiro a casar; primeiro a divorciar. O mais novo em tantas coisas que não vou listar.

Mas e daí?

É claro que isso atiçou desde sempre a minha vaidade, uma vaidade que desde as festas infantis eu discretamente incorporei à minha máscara social. A vaidade, meu pecado favorito. Mas: envelheci.

Envelheço, envelheço, as calças usarei enrolando as bainhas do avesso. Quem escora seu edifício sobre mil precocidades logo vê a obra de toda uma vida ruir. Primeiro: e daí? Fazer algo antes não significa fazê-lo melhor, longe disso, e certamente não me traria prejuízo ter demorado um pouquinho mais para encarar metade das responsabilidades que a vida me impingiu. Segundo: não é possível ser precoce para sempre. Um dia você é o mais novo; no seguinte, está na média. Mais dois e perde o passo.

A vida não é justa, eu tive de repetir para duas inconformadas alunas nesta semana. Ela é cega e burra, e anda sempre adiante, sem se condoer com nada, sem se arrepender de nada, sem lamúrias, como uma tempestade.

Meus últimos anos de precocidade estão diante de mim, tenho perfeita noção disso. Dentro de mais dois ou três terei de procurar outro argumento para ser notável nas festinhas infantis, onde chamarei cada vez menos atenção. Logo partirei meus cabelos junto à nuca, sequioso de atenção, de algum sentido de coesão. Entre moças vestidas de Romero Britto, ousarei comer um pêssego?

Usarei calças de flanela branca e andarei pela areia.

Já tive filha, publiquei livro e plantei algumas dezenas de árvores. Não sei quantas ficaram de pé. Eu fico. A precocidade, contudo, passou. Há repórteres muito mais novos nas redações, há professores mais jovens nas universidades, há poucos meses um aluno-amigo pegou nos braços a sua primeira filha. Choramos.

A vida segue, e há de haver mais do que essa espécie de vaidade imberbe para nos escorarmos.

Aos professores, especialmente. Os professores estamos presos num feitiço do tempo: ano a ano envelhecemos, enquanto os alunos mantém-se sempre jovens, cristalizados na arquitetura dos 18 anos. Nada pode ser mais violentamente esclarecedor do que isto: assistir à passagem do tempo estampada nos rostos sempre juvenis. Dos outros.

O tempo passa para todos, mas professores envelhecemos em dobro. As vistas cansadas sobre os livros, os pés fincados num cânone secular, às vezes milenar. E todos os demais sentidos entorpecidos pela juventude que sempre se renova. Sempre.

Envelhecemos em dobro, mas dobradas são as chances de nos tornarmos mais sábios. Ou, com justiça, menos ignorantes. O bom professor é aquele que aprende, sobretudo, as lições do tempo.

 

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