arte: loro verz

»As notícias sobre o atentado ao candidato Jair Bolsonaro não haviam completado nem 10 minutos de vida quando recebi os primeiros memes. Começaram a gotejar inicialmente pelas redes sociais, que cada vez menos frequento, e não tardaram a respingar no meu próprio telefone, via What’s App, e, vindos dos meus próprios amigos, colegas e parentes, se tornaram difíceis de ignorar.

Em pouco tempo, o gotejamento virou tempestade, e a tempestade, tsunami. Os memes, jocosos, pretensamente cômicos, muitas vezes apenas desumanos, dividiam espaço com questionamentos toscos que, ao longo do dia – e dos dias – foram se tornando elaboradíssimas teorias da conspiração. Elaboradíssimas, digo, do ponto de vista dos próprios conspiradores. Para um observador desapaixonado eram, quase sempre, tolices mal disfarçadas, tão convincentes como um asno de terno e gravata.

Foi precisamente nesse momento, no início da noite de quinta-feira, que comuniquei meus próprios amigos que desconectaria de todas as redes até a semana seguinte. Eu já tivera amostra da fealdade do humano-anônimo, do humano-descarnado que habita as redes sociais e preferia, simplesmente, ler um livro enquanto não surgiam notícias confiáveis acerca do evento todo (apesar da hipocrisia dos críticos, a verdade é que elas, as notícias sérias, existem, e nem é tão difícil assim encontrá-las).

A verdade do atentado a Bolsonaro é esta: as pessoas podem ser horrivelmente cruéis. Pior: podem se tornar isso, pequenos déspotas sanguinários, no espaço de poucos minutos, em troca de coisa tão insignificante como um punhado de likes. O importante, nessa hora, é ser rápido. O primeiro a lacrar. O lacrador – ou hilário ou ácido ou brilhante – que, da poltrona do quarto, da tela do computador, viu o que ninguém mais viu: sabe mais do que médicos, jornalistas, vítima e algoz.

As pessoas podem ser horrivelmente cruéis a ponto de esfaquearem outras pessoas, como bem sabemos desde que o mundo é mundo, mas também podem ser horrivelmente cruéis a ponto de fazerem todo tipo de ilação a respeito apenas para: a) sentirem-se inteligentes; b) sentirem-se acolhidas e até porventura amadas; c) sentirem-se importantes, como se o fluxo da história, da grande história do país, passasse inevitavelmente pelas mãos digitabundas delas e de suas opiniões. 

Foi assim que vi colegas e amigos embarcarem, sem restrição alguma, nas teorias mais alucinantes. Trovejaram especulações sobre a ausência de sangue no paciente e de luvas nos médicos – como se meus amigos jornalistas, professores, sociólogos, fossem especialistas no efeito de perfurações por faca em abdomens distraídos ou em procedimentos cirúrgicos –, sobre a possibilidade de Bolsonaro ter armado o caso todo, sobre a mídia manipuladora (um clássico), sobre o criminoso ter a identidade convenientemente oculta (isso nos primeiros segundos após o atentado!) e por aí vai, numa sucessão de absurdos que todos já ouvimos, a esta altura.

Do lado oposto, igualmente pulularam teorias sobre as motivações do criminoso, sua ligação com partidos de esquerda, a pequena fortuna que teria aparecido em sua conta bancária.

A tudo eu respondia, quando incitado, do mesmo jeito: é, pode ser, mas pode não ser também, então é melhor esperar pra saber. Os amigos se exasperavam com a minha recusa em alimentar as conspirações, eu me exasperava com aquele exasperamento, e subitamente me via arrastado para discussões que simplesmente não queria travar, pela simples falta de um território comum.

Como um soldado no front surrealista, parava e me perguntava, frequentemente: estamos lutando contra o que, mesmo?

A verdade do atentado a Bolsonaro é esta: perdemos a capacidade de debater civilizadamente assuntos muito sérios, perdemos a capacidade de identificar as questões que são realmente suprapartidárias, que estão acima das querelas da vez. Diante de nós, filmado e retransmitido à exaustão, havia um ser humano sofrendo uma tentativa de assassinato. Acho desolador, no mínimo, que se faça piada disso, que se minimize o ato ou relativize o ocorrido com qualquer tipo de “mas”.

E, claro, foi também um atentado contra a democracia. Bolsonaro, além da pessoa física, é o candidato líder das pesquisas de intenção de voto a presidente do Brasil. O golpe contra ele cruza uma fronteira que parecia sagrada: pode criticar e pode até xingar, mas a destruição do adversário nunca é física, sempre deve ficar restrita às palavras, ao mundo das ideias.

Mas naquela tarde de quinta-feira muita gente aplaudiu a escalada da violência; aprovou o fato de que a destruição física de adversários tivesse entrado no cardápio de opções do  “jogo” político eleitoral. Tudo porque não gostavam do candidato. Não percebiam, contudo, que isto não tinha a menor relevância, o gostar ou não gostar de Bolsonaro. O respeito ao ser humano e à democracia deveria preceder esse tipo de julgamento, mas, no mundo pós-redes sociais, ocorre o contrário. As categorias de gostar e de não gostar, ou de curtir e de não curtir, tornaram-se hegemônicas, prioritárias.

O que curto é bom. O que não curto é mau.   

Eis a verdade do atentado, para mim. A pior crise não é econômica ou política ou científica ou mesmo educacional. É humanitária. Empática, enfática, urgente. A crise começa em nós, dentro de nós mesmos, e não tem hora pra acabar.«

 

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