arte: loro verz

»Há uma tribo ao norte da Suazilândia, na costa africana, pequena porém populosa, em que se cultiva o ancestral hábito de enforcar gatos.

Trata-se de uma tradição religiosa. Por lá, a crença generalizada é de que o gato é um animal diabólico, que transitaria entre o plano terreno e o submundo – terra de demônios e espíritos amaldiçoados –, e nesse trânsito traria para perto de nós os eflúvios das trevas. Seriam uma espécie de Uber infernal, trazendo para a nossa esfera os caroneiros do diabo.

Se, muito ao norte dali, no Egito, cultivou-se um dia a tradição dos gatos como enviados dos deuses, por seu porte esbelto e elegante, sua independência e agilidade, na pequena tribo de Boafra por alguma razão os homens chegaram a uma conclusão oposta. A agilidade e independência do felino o tornaram, por lá, malfadado. O gato é um gatuno: vive nas sombras e delas se alimenta, surge quando menos se espera, saltando dos mundos inferiores para o nosso, com seu permanente riso de escárnio, à espera da decadência de nossa era.

Em sendo pequena, a tribo, e localizada nos confins da África subsaariana, jamais se deu importância a esse fato. Apareciam no máximo como nota de rodapé dos livros de antropologia, um adendo curioso ao paganismo.

Então veio a globalização, e, com ela, os boafranos começaram a viajar o mundo. Dada a relação com colônias francesas e inglesas próximas à sua tribo – ela, em si, sem atrativos econômicos, nunca colonizada –, muitos tomaram como rumo a Europa Ocidental.

Lenta, mas subitamente, começaram a sair dos rodapés antropológicos para ganhar as páginas dos jornais diários.

Os boafranos espantaram-se sobretudo com o tratamento dado aos gatos em capitais como Londres e Paris. Gatos domésticos! Chocavam-se com aqueles que recebiam dentro de suas casas os emissários das trevas. Só poderiam ser, por assim dizer, satanistas. Simpatizantes do mundo de baixo. Quiçá fossem escravizados pelos misteriosos poderes felinos. Uma antiga lenda boafrana afirmava que um dia os gatos escravizariam os humanos – e, sabendo disso, os felinos apenas aguardavam a nova aurora, com paciência.

Assim, os boafranos passaram a perseguir os felinos europeus. Organizaram-se em pequenos grupos de quatro ou cinco imigrantes. Saíam às ruas depois de um dia de exaustivo subemprego e, com paus e pedras e arames às mãos, caçavam gatos. Se esses brancos não sabem com o que estão lidando, diziam, teremos de salvá-los.

No começo poucos notaram o fenômeno: os gatos de rua estavam desaparecendo. Em pouco tempo, contudo, as evidências do felinicídio se espalharam por toda parte. Confiantes em suas tradições, os boafranos não apenas botavam felinos para correr, mas faziam questão de, conforme rezava o livro sagrado, enforcá-los no mais alto galho da mais alta árvore da vizinhança – assim os espíritos de luz seriam capazes de tomar e purificar a obscura alma felina.

Revoltas terríveis tomaram conta das ruas de Paris e Londres – e delas às cidades próximas. Que gente brutal era aquela que enforcava gatos? Aquela gente que parecia dócil e trabalhadora traíra o povo que lhes acolhera. Enforcava seus animais de estimação! A imprensa inflamada perguntava: quem serão os próximos? Cães? Nós? A imprensa moderada ponderava: diferentes religiões, diferentes culturas, devem ser respeitadas. O crime era bárbaro, mas o argumento religioso era forte.

Foi criada uma solução de meio-termo: bairros em que era liberada a matança de gatos, bairros em que era proibida a chacina. Os boafranos, é claro, dominavam os primeiros. Nenhuma das partes estava, contudo, realmente satisfeita. De ambos os lados, só esperavam a oportunidade perfeita para um golpe civilizatório: para mostrar ao mundo quem tinha razão.

O  tempo passou e a inimizade só cresceu.

Até que chegaram as asiáticas cujo credo defendia a castração.

Chegaram os que pregavam o sacrifício dos primeiros filhos.

Chegaram os homens cujas mulheres viviam aprisionadas.«