arte: loro verz

»Se o melhor do Brasil é o brasileiro, não sei. Mas acho difícil de acreditar que o melhor das Olimpíadas seja o (torcedor) brasileiro.

Não se trata de comprar discurso gringo. Não é porque a imprensa estrangeira não gosta de algo que nós, por imposição moral ou capital, deveríamos também deixar de gostar. O New York Times detestou o o biscoito Globo, a Lúcia Guimarães não aprecia bagel nova-yorkino. Nessa briga de gigantes, não tomo partido. Meu partido, aliás, é outro: entre biscoito de polvilho e paõzinho rosca, fico com um clássico espetinho. 

Nem tanto ao céu nem tanto à terra. Está certo que não podemos concordar com tudo o que se publica lá fora só porque os salários são pagos em dólar – ou porque, sei lá, inventaram a bomba atômica e o iPhone. Por outro lado, patriotismo não é argumento. Confesso que eu mesmo já andava envergonhado da nossa torcida.

Cresci ouvindo que o brasileiro é receptivo e cordial. Melhor povo do mundo. Mas cresci. Hoje vejo na rua um povo muito heterogêneo: ora acolhedor, ora agressivo. Aliás, brasileiro é assim: aos amigos, tudo, aos inimigos, a forca.  Aos amigos, jeitinho na lei, lugarzinho na fila, tapinha nas costas. Aos inimigos, tiro, porrada e bomba.

De metáforas bélicas, aliás, nosso esporte está cheio. O camarada entra em campo e já vira gladiador, guerreiro, soldado. Não quer ganhar, mas massacrar, fuzilar.

Claro que é tudo de brincadeira, como brincar de pega-ladrão, mas o problema é que sempre há um punhado de infelizes que levam a coisa a sério demais. E, nestas Olimpíadas, muita gente resolveu levar as coisas a sério demais. Sobram urros e xingamentos a quem só queria exibir seus saques e piruetas, numa boa, em festa, com a esperança de, se tudo corresse bem, faturar uma medalhinha.

Quando se leva a ferro e fogo uma coisa dessas, o resultado pode ser cômico ou trágico. As Olimpíadas têm sua dimensão cômica, com a torcida gritando “zika” à goleira norte-americana assustada, e têm sua dimensão trágica, quando episódios assim vão se somando até que o retrato do povo cordial seja o que de fato é: povo de tripas-coração, que leva tudo para o lado pessoal.

Por que levamos tão a sério um jogo de peteca, uns chutes ao gol, umas acrobacias sobre o trampolim? Meu palpite: o esporte não é o esporte, é o esporte e mais a soma de tudo o que depositamos sobre ele. É o esporte mais o Temer, a Dilma, o desemprego, a inflação, o imperialismo, o Eduardo Cunha, o Marco Feliciano, a polícia, o bandido, os motoristas que avançam o sinal vermelho; os boçais.

Contra eles, contra tudo, gritamos. A torcida pelo fracasso supera a torcida pelo sucesso. A torcida pelo fracasso é um desejo violento de destruir as qualidades do outro, as possibilidades do outro, a identidade do outro. É um veneno, um medo, uma inveja.

Mas torcendo pelo fracasso fracassamos como torcida.

Gritamos nos estádios, já que nos escritórios, lares, repartições – até nas ruas –, somos abafados. 

Com uma medalha de ouro quem sabe nos deem um sossego. Quem sabe sob o nosso grito os outros silenciem. Quem sabe nos deixam em paz – quem sabe fica mais fácil esperar o Carnaval chegar.«