arte: loro verz

»Completamos a primeira semana em isolamento, aqui em Portugal.

Os primeiros dias têm todos a mesma estranha cara de domingo. Uma mistura de familiaridade e absurdo no ar. Parece que já vimos esse cenário em sonhos, filmes, retalhos da madrugada: ruas quase totalmente vazias, comércio fechado, um silêncio que realça o barulho do vento e dos pássaros. Nenhum motor de automóvel, nenhum avião no ar.

Ao mesmo tempo, quanto mais percorremos esse domingo perpétuo, menos ele parece real. A repetição, o prolongamento, torna tudo estranho. De perto, pequenos erros de continuidade, incongruências, sobressaem. As ruas estão vazias e silenciosas, mas, ao cruzar uma esquina, esbarro em uma longa fila. Como que saídas do nada, uma dúzia de pessoas aguarda autorização para entrar no supermercado – devagar, sem alarde, respeitando a distância mínima de um metro entre uns e outros.

Para tudo há uma distância mínima. Quase me sinto culpado de estender a mão ao pacote de farinha e, enfim, tocá-lo. Nos tornamos extremamente conscientes daquilo que tocamos. Faço graça com o Pequeno Príncipe, penso que nos tornamos responsáveis por aquilo que tocamos. Literalmente. Estou sempre atento: como minhas mãos vieram parar no rosto? Coçar meu nariz, alisar sobrancelhas? De onde vêm esses desejos banais?

Em casa, os filhos evitam os pais, que mantém os avós longe de todos.  Sem desespero, mas cautelosamente. Desenvolvemos uma linguagem sofisticada de olhares. Há os frios e os quentes, os tristes e os esperançosos, os tensos e os resignados. E há os que não dizem nada.

Paradoxalmente, a distância também aproxima. Gente que eu não via há anos agora sente urgência do contato, vizinhos espalham cartinhas generosas (eu mesmo me ofereci para fazer as compras da síndica do prédio) e, no fim do dia, o moço debruçado na janela em frente acena e sorri como quem diz também vai passar, também isto vai passar.

Admiro a tenacidade dos portugueses e acompanho atentamente as notícias do Brasil. Aqui, não temos dúvidas de que também isto tudo vai passar: a ameaça de uma doença que se finge de boba para botar países de joelhos. Os amigos da Espanha e da Itália mandam alertas para que não nos deixemos enganar por essa cara de sonso do vírus. É sério. É mau. Mas vai passar: já atravessamos guerras e impossíveis navegações; ditaduras, expurgos, fome. Pestes piores. Vai passar.

A grande questão é: mas que marcas essa passagem poderá deixar? Que marcas queremos, e quais deveríamos evitar?«

_____________________________________________

Siga-me também nas redes sociais.

Facebook: males crônicos.
Twitter: @essenfelder.
Instagram: @renatofelder. 

_____________________________________________