Flores

 

arte: loro verz

» Colocar flores sobre o túmulo do pai é colocar flores sobre o próprio túmulo. Sob a terra descansam passado e futuro, à espera do imponderável. No fundo, ninguém sabe nada de nota sobre tudo aquilo que importa. Ligo o rádio e falam em novos planetas e maravilhas, a televisão anuncia modos de vida inacessíveis, os sábios esmiuçam minúcias enquanto a ciência fatia, categoriza, classifica. Avançamos muito. Setecentas bilhões de janelas na internet se abrem para sete milhões de perspectivas – mas somos tão míopes quanto sempre fomos, no que importa. As lápides não têm wi-fi.  

[De nada adianta, por fim, esperar sabedoria, se a cada geração nascem menos e menos homens e mulheres sábios].

Curitiba foi não é mais. O verso, do vampiro Dalton Trevisan, é sussurrado nos bares pobres das cercanias do Cemitério Municipal, onde defuntos tomam suas cachaças enquanto alardeiam as glórias de antigamente. Não sei bem se isso é verdade, mas alguma verdade certamente contém. Tenho ido cada vez menos a Curitiba, onde o jazigo da família cresce silenciosamente.

Meu pai não concordaria com Dalton. Para ele não haveria como distinguir aquela Curitiba gloriosa de antigamente da Curitiba atual. Ele vivia numa espécie de Curitiba eterna, de Curitiba permanente, uma sempre Curitiba em glória preservada, como num aquário de vidro, imersa em garrafas de Brahma gelada. Por mais que a realidade o exigisse por todos os lados, duramente – ou talvez por isso mesmo – sempre escapou por entre os dedos das obrigações diárias para um mundo de importâncias para nós incompreensíveis.

Carrego o mesmo nome do velho. Renato Essenfelder Abrahão, mas Filho. Recentemente um aluno, tamborilando o meu nome no Google, deparou-se com o dele e, sem saber de toda a história, espantou-se com a notícia improvável: eu havia morrido. Espalhou as novas em classe após classe até que eu surgisse, fantasmagórico, na semana seguinte. Andava ainda. Vivo. Mais pálido; cinzento, certamente. As costas inflamadas e os ombros caídos. Mas vivo.

Eu, ao contrário de meu pai, meu homônimo e tantas vezes antônimo (outras, admito, sinônimo), jamais escapei das garras da rotina. Listava haveres e deveres e os cumpria, na medida do possível, esperando manter a máquina em movimento por tempo suficiente para criar algo bonito. Criei uma filha.

Não vivi o antigamente, como o Dalton, como o Renato. Vivo o agora muito atabalhoadamente, com dor nas costas e pilhas de obrigações. Envelhecer é ser cobrado, cada vez mais cobrado, por cada vez mais gente, até que ninguém cobra mais nada – é o amor, ou a aposentadoria, ou a morte. Ou tudo isso. Meu terceiro romance está em gestação lenta, como se parido por um mamute – desses dinossauros que deveria haver na Curitiba de glórias passadas.

Sigamos: fiz meus planos de compreender esses antigamentes. Escrever um dia um livro, ou quem sabe roteirizar um documentário com minha amiga japoníndia, a mais curitibana das criaturas, falando da história da família, dos pianos, dos planos, das brigas, da opulência, das loucuras, da falência e da relação com a cidade.

Era um projeto muito pouco original de também me reaproximar do meu pai, que amava contar essas histórias todas e que de maior legado deixou pilhas de fotos, documentos, papeis de família. Para ele o antigamente era algo que se renovava todos os dias, embora fossem as mesmas histórias sempre. Ou eram outras e a gente não percebia?

Colocar flores sobre o túmulo do pai é colocar flores sobre o próprio túmulo, olhar para trás e lembrar de tudo o que não é mais e de tudo o que poderia.

O velho Renato vivia com o coração nessas histórias, grandes histórias.

Ainda vive. «

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