arte: loro verz
»A minha amiga cansou. Disseram que enlouqueceu. Anda pelas ruas da cidade com um globo terrestre debaixo do braço. Sem mala, sem passaporte, sem saída. Cansada.

A minha amiga é real. Esta história é real. Os braços estão lá, cansados, porém firmes, abraçados ao mundo. Ela é tímida, mas abraça o mundo desde antes de o mundo se constituir na imensidão que é. Desde bem pequena, cuidando das irmãs, cuidando de quem mais precisasse de cuidado. Mandando-me cartas e abraços telegrafados – seus amigos cuidados.

Hoje cuida da mãe. Nunca a vi sem cuidar de alguém. Cuide de si também, eu lhe falei algumas vezes, mesmo querendo evitar o clichê. Era preciso dizer. Minha amiga sorriu, como sempre sorri, baixou os olhos para a xícara de café e falou: galego. Então pagou a conta e saiu para chegar a tempo do jantar ou do expediente ou do banho ou do trem. Minha amiga é muito pontual. Quem sabe cuidar, precisa ser pontual.

Hoje ela está tão cansada que, na impossibilidade de viajar – pois esta história é tão real como passaporte, dinheiro, agulhas, comprimidos e xícaras de café –, anda com um globo terrestre por aí, pela cidade, nos intervalos dos cuidados que precisa prestar.

Eu vivo dizendo venha para cá, fique em minha casa, venha esquecer e descansar, mas ela não vem porque ela sabe que eu sou irreal e ingênuo demais, e sabe que todo o meu castelo é sustentado por sorte e espuma. Ela construiu uma casa com as próprias mãos. Em cada tijolo deixou um bocado de pele.

Portanto quando consegue se afastar das paredes, quando escava um intervalo no cuidar, ela coloca o globo terrestre sob o braço e sai pela cidade, sem destino. Acham-me louca, constata serenamente. Eu rio um claro que não. Mas vivo em um mundo de acrobatas, faquires e filósofos, e ela vive no mundo real. No mundo real, qualquer loucura é loucura demais.

Ela anda pelas ruas da cidade como um equilibrista às avessas. Mantém firme o globo debaixo do braço. Não caminha para encontrar alguma coisa, não segura o objeto como se ele fosse um bilhete, um passaporte, uma estrada. Não é como se o globo fosse um mapa. Ela detesta a paralisia antipática dos mapas. Gosta da esfericidade do globo, da curvatura quase sensual que promete que, além do horizonte, esconde-se algo.

Não sabe se haverá paraíso, na sombra do mapa. Ou melhor, sabe que não, mas não se importa com isso. Ela não quer encontrar nada realmente especial. Quer apenas se desencontrar de tudo o que foi e de tudo o que há, nem que seja por um breve tempo. Momentos. Respirar.

Com o globo sob o braço ela suspira e se afasta.«

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