arte: loro verz

»Quando eu era mais novo, tinha o hábito de deixar minha comida favorita para o fim da refeição. Se era dia de batatas fritas, deixava-as no cantinho do prato, cuidadosamente separadas – reluzentes, gloriosas. A promessa do prazer futuro, mas de um futuro logo ali, bem diante dos olhos, tornava tudo mais gostoso: o arroz, o feijão e os ovos. E depois: batatas.

Era, literalmente, um caso de “ao vencedor, as batatas”. Eu, vencedor na vida, adolescente prestes a devorar uma montanha de petiscos recém-tirados do óleo quente, sorria de satisfação silenciosa. As batatas.

Às vezes, tudo corria bem. Quando chegava enfim a hora delas, as batatas, eu era tomado de uma euforia discreta. Comia com prazer. Não só prazer: parecia que aquela delícia dava sentido a todo o resto, a todos os ingredientes insossos que haviam sido devorados como preparação, e apenas preparação, ao grande final.

Às vezes, tudo corria mal. Quando enfim chegava a hora das batatas, já estavam frias, murchas, tristes, empapadas de óleo morno e indigesto. Era uma tragédia. Não apenas perder as batatas, mas as esperanças. Para que tanta salada, meu Deus, se depois não haveria mais nada? Nenhuma explosão de prazer?

Os dias maus, claro, eram muito mais potentes e marcantes do que os dias bons, em que tudo corria bem. Bastava um almoço sem sentido para que eu passasse o resto do dia mal-humorado e meditabundo. Qual seria o sentido daquilo tudo?

As batatas se tornavam metafísicas. Frituras existencialistas.

***

Com o tempo, ou talvez mesmo pela falta de tempo, arrisquei inverter a ordem dos prazeres. Por que, afinal, deixar por último o melhor? Por que correr o risco de comer batatas murchas, se, invariavelmente, elas eram mais saborosas quando frescas e quentes? 

“Acho que não dei a ele o meu melhor, que não lhe ofereci o que sei que tenho de mais bonito, autêntico, vulnerável”, uma dessas atrizes de comédia romântica dizia, na tela. “Ele” era o grande amor da sua vida – mas, como em toda história de amor, partiu.

Batatas. Compreendi na hora a situação. Roteirizei a história na cabeça. A jovem dava o seu melhor às amigas, à família e até aos amantes ocasionais, que não ofereciam nem prêmio nem risco, apenas distração. O seu melhor. Ao suposto amor, não (jamais). Deixava-o quente e crocante no cantinho do prato, aguardando a hora mágica, o instante decisivo. Amou decidida a deixar as batatas para o final.

Ou era medo de que já estivessem frias?«

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