Foto: pixabay

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»Que o Brasil não é para amadores, todo mundo já sabe. Nada é impossível ao sul do Equador. Criança armada, cristão macumbeiro, dançarina funk sexy-gospel, paradoxos. Nem Bauman acreditaria na liquidez tupiniquim, onde valores e contravalores mudam de cara minuto a minuto, ora aos tapas, ora aos beijos. Havendo, é claro, uma vantagem ao final, vale tudo.

Todo mundo sabe, mas ainda assim espanta o grau de esculhambação a que chegamos. Pergunto: é tudo normal? Normal pode não ser, mas comum. Cada vez mais comum.

O Brasil: corre um processo mezzo político mezzo jurídico mezzo humorístico mezzo folclórico, como bom prato de nossa cantina, sobre o impedimento da presidente da República. Assunto mais grave, da maior importância. Assunto dramático, de repercussão profunda na pele da nação. Mas, se a nação é o Brasil, tudo é tema de carnavalização. É bonito, mas desola. É engraçado, mas cansa. 

Um ex-ministro da Justiça, num processo de impedimento da presidente da República, cita em sua defesa o iminente jurista Thomas Turbando de Bustamante. Repito: o advogado da presidente afastada, elencando juristas contra o impeachment, cita o jurista-cacófato thomasturbando. Parece piada. É Brasil.

Enredo cabível para episódio dos “Simpsons”, daqueles em que Bart resolve passar trote no Bar do Moe. Cena 1: Bart liga de sua casa para o bar e pede para falar urgentemente com o dr. Thomas Turbando. Moe, ingênuo como um sr. Cardozo, abafa o telefone com uma das mãos enquanto grita à turba do boteco: “Telefone para o sr. Thomas Turbando. O Thomas Turbando está?”. Rimos. Fim da cena.

O problema é que, ao contrário de um episódio dos Simpsons, o Brasil prossegue. Prossegue na vida de milhões de cidadãos e prossegue nas piadas infames. Faz graça com merenda roubada, graça com estupro, graça com roubalheira, assassinato, desnutrição. Não é um país meu e seu, mas dos doutores thomas turbando da nação.

(Não é que o humor não possa tocar nos mais graves assuntos, não é que o humor não deixe a vida mais tolerável, mas.)    

A piada, repetida, perde a graça.

A piada, quando não acaba, castra.

Do nascimento à morte, viramos reféns de um humor bizarro. É preciso rir para não olhar.«

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