arte: loro verz

»A renda vai encolher, a saúde mental e física vai deteriorar, a saudade dos amigos vai apertar, os amores vão esfriar, mas, ao menos, terei muito mais tempo livre. Tanto a fazer!

Era assim que eu me consolava, nos primeiros dias de isolamento social, enquanto o meu perímetro era restrito radicalmente à casa e às gôndolas do supermercado.

Fiz uma lista mental de tudo o que eu poderia fazer agora que o trabalho ia diminuir de ritmo e as aulas do mestrado em cinema seriam semissuspensas. Separei uns livros para ler (a meta de 2020 é ler mais autoras mulheres e mais autores jovens, então comecei por “A Vegetariana” e “A Uruguaia”), fiz uma longa seleção de filmes clássicos, especialmente italianos e franceses (Antonioni, Fellini, Godard, Truffaut), reuni receitas elaboradas de pães, bolos, geleias, caldas, programei a revisão do meu livro de crônicas (saiu aqui!), a edição de um romance, o início de outro, lives com minhas amigas do Porto e meus amigos do Brasil, faxinas meticulosas. Pensei em pintar os banheiros e enquadrar pôsteres de filmes.

Mesmo assim, segui angustiado. Teria muito tempo livre, o que mais poderia fazer? Pesquisei uns concursos de literatura e de cinema. Pensei em uns argumentos rudimentares para desenvolver. Também seria bom me aproximar mais da família e de pessoas queridas pras quais a gente acaba não dando muita atenção no dia a dia. Cartas! Vou escrever cartas à mão. Separei uns cursos de filosofia, psicologia, edição de vídeo e, até, desenho. Lamentei não ter um instrumento musical comigo. Sempre quis fazer música, agora era a oportunidade de uma vida.

Comecei a gravar pequenos trechos do meu dia a dia. Fiz um diário em vídeo (era tarefa do curso de cinema) e pensei que poderia tornar isso um exercício permanente. Fiz planos e mais planos, planos dentro dos planos, tópicos e subtópicos. Baixei o programa para declarar o Imposto de Renda. Separei a papelada.

Preciso entrar em contato com o banco, solicitar o adiamento de um empréstimo, e com as companhias aéreas das viagens programadas para o meio do ano. Tem também hotel, trem e passeio pelo deserto do Saara. Pensei que seria legal rever fotos antigas e fazer uma limpa nos catálogos virtuais, que já devem somar umas dez mil imagens meio órfãs.

Baixei uns jogos de videogame. Faz anos que não jogo videogame. Seria mais uma boa distração, para as infindáveis horas de tédio quarentenal. E malhar. Existem uns aplicativos ótimos para quem quer malhar em casa.

A lista seguia crescendo. 

Mas a quarentena começou e a lista não diminuiu. Pelo contrário. O que estava acontecendo? Na prática, passo os dias lendo notícias, cozinhando e fazendo faxina. Como resumiu uma amiga, mãe de duas crianças: é metade do dia sujando, metade do dia limpando. Depois da comida feita, da louça lavada, da roupa batida e estendida, sobra tempo para passar uma vassoura e ver um pouco de TV. Quando muito, umas páginas de literatura. Minha vida de professor-estudante-escritor-pai solteiro não mudou muita coisa. Só estou um bocado mais pobre e um bocado mais frustrado sem os abraços das pessoas queridas. Não aprendi a desenhar. Não pintei os banheiros. Não zerei a filmografia do Neorrealismo Italiano.

O tempo livre sempre foi uma ilusão.

(Mas ao menos terminei de ler “A Vegetariana” e “A Uruguaia”. São muito bons. Eu recomendo.)«

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