arte: loro verz

»Ela estava sempre a caminho de alguma coisa. No início, preocupava-se em identificar o destino. As pessoas não entenderiam, se não o fizesse. Então ela estava a caminho da escola, a caminho da faculdade, a caminho do trabalho, a caminho de casa – onde, por certo, aguardariam por ela marido e filhos sedentos de um amor compreensivo e maternal.

Quer dizer, essa seria a história, se ela não a tivesse interrompido.

Ela estava sempre a caminho de alguma coisa, e sempre precisava justificar, quase sem pensar, o destino da caminhada. Pra que tanta pressa? Pra que tanta angústia? Pra que sair de casa? As provas, as reuniões, os doutores e senhores compromissos. Até o dia em que balançou os ombros, virou lentamente a cabeça para trás, para os olhos de seus pais, angustiados, e arrematou: a caminho de nada.

Sempre existe “o dia”. O “até o dia em que…”, o incidente incitante que guarda a semente da revolução. A bifurcação da estrada. Em meio à floresta densa, intransponível, abrem-se dois caminhos. O primeiro de chão batido, bem sinalizado (embora ninguém saiba se as placas mentem ou não): o conhecido. O segundo, feio, torto, entre cobras e lagartos, coberto de teias de aranha, quase inexplorado, intimida. Mas “o dia” só se realiza por ele.

No caminho conhecido “o dia” vira outro dia, mais um dia, tudo igual, dia a dia. É pavimentado de você já sabia, eu te avisei, faça isto e alcance aquilo. Mais ou menos previsível – ou melhor, imprevisível, como tudo o mais na vida, mas em alguma medida mapeado. Esse caminho não garante sucesso algum. Mas garante, ao menos, um parâmetro de sucesso. Ele diz: se você se esforçar o suficiente, chegará na casa, no carro, na família. À estabilidade.

O outro caminho também não garante sucesso algum. Aliás, muito menos. Ele nem vai lhe dizer o que o sucesso é. “Se você se esforçar bastante”, soprarão as ninfas da encruzilhada, “pode ser que chegue a algum lugar”.

– Mas, se não se esforçar nada, quem sabe chegue ainda mais rápido.

Quando chegou para ela “o dia”, a garota partiu pelo caminho desconhecido. Respirou fundo e disse: não sei para onde estou indo, mas estou indo.

– Por quê? – os pais, horrorizados, perguntaram.

Olhou para as próprias mãos e para os próprios pés, sem nada responder. Não era mais menina, e não havia o que dizer. Eles queriam mapas, planos, placas. Eles queriam, ao menos, saber o que era “o sucesso”. Ela não tinha nada disso. Ela não tinha nada além do sentimento. Mas o sentimento, sabia, é a coisa mais fina do mundo.

Seguiu o sentimento. Ela estava a caminho, agora, não para chegar a algum destino. Ela trilhava o desconhecido, o estranho e libertador mundo sem mapas.

– Por quê? – as antigas amigas, excitadas, perguntavam.

Ela não tinha uma boa resposta. Ela só o fazia porque aquilo parecia fácil.«

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