»Talvez você tenha se esquecido disso, mas: beleza importa. Beleza é importante, refrescante, subversiva. É parte fundamental da vida.

Um certo discurso politicamente correto tenta apagar isso em nome da igualdade e do respeito, mas, como costuma acontecer quando os arautos dos bons costumes gritam alto demais, o estardalhaço não liberta, apenas silencia.

Não se trata de uma “crítica aos feios”, mas à feiúra. Não um surto de censura, mas de sensibilidade. A beleza importa.

Passei alguns anos tentando negar isso. Diante dos horrores da vida urbana, contemporânea; diante das favelas, misérias e latrocínios, como falar de beleza? Como cobrar uma flor no mangue das injustiças?

Sim, passei por isso, atravessei esses pensamentos todos, muito sérios, muito sério. Sisudo, envelheci. Não porque o tempo passasse de modo especialmente cruel, para mim. Mas porque a vida sem beleza é opaca, sem graça. Envelheci como envelhecem os peixes no aquário, sem ter o que ver, até que os olhos apagassem.

Perder a beleza de vista é incrivelmente fácil: paradoxalmente é mais cômodo não vê-la do que vê-la. Isso porque a beleza, além de estabelecer um certo padrão incômodo (um desenho de criança é lúdico, bacana, mas um afresco talentoso é genuinamente belo), cobra uma contrapartida. Além de nos denunciar tudo o que é feio, dentro de nós mesmos e à nossa volta, a beleza ainda por cima é exigente. Pede a contrapartida do tempo para admirá-la, do treinamento para apreciá-la (nem todas as belezas são óbvias, dadas), da disponibilidade de cabeça e coração. Uma abertura ao novo, um desprendimento difícil de praticar.

Aos poucos, contudo, a beleza me chamou. Se você é um tantinho criativo, um tantinho (de nada que seja) artista, sabe do que estou falando. As musas, mesmo contrariadas, estendem a mão, de tempos em tempos, para os que precisam de ajuda para reencontrá-las. 

Fui (re)percebendo a beleza de umas nuvens vestidas de noiva, prontas para desposar o poeta. A beleza de uma pintura que, no meio do sofrimento, acena com tênue esperança. A beleza das pessoas, dos seus tipos, a beleza do mar e do céu. Lá, onde estava eu, estava a beleza, fresca, surpreendente. Caprichosa, me dizia que era preciso estar presente, dedicar-se, abrir sinceramente os sentidos.

A beleza não está em tudo. Não está nos olhos de quem vê. Não está abundante e democraticamente distribuída. Como a natureza, não é justa nem injusta, apenas existe.

Tanta feiúra, tanta fuligem, embotam os sentidos até que sentido nenhum haja: apenas seguimos e sobrevivemos. Quem busca a beleza, contudo, vive. Canta, dança ou observa silenciosamente, presente no instante. Enfim: renasce.«

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