arte: loro verz

»A vacinação do cachorro está vencida, corro para o veterinário. É um desses momentos de vida prática que se sobrepõem às várias questões filosóficas da existência. Às vezes penso: o que faria um filósofo moral numa situação de vida ou morte? Dou risada da minha própria estupidez. Provavelmente ele salvaria a sua pele e, depois, no conforto do lar – ou do bar – meditaria a respeito.
Quando a corda está no pescoço, só queremos ar.
Outra surpresa: chegando ao amigo doutor, vejo como está magro. Nem preciso verbalizar o espanto, logo o veterinário anuncia, orgulhoso: fiz bariátrica. E nem me parecia tão gordo. Fui de 120 para 75 quilos, emenda. Uau. Não quis esperar, diz, a situação ser tão grave que a cirurgia oferecesse mais risco do que o necessário. Operou logo.
Eu logo me interesso pela história toda, enquanto o cão aguarda a vacina. Enxerido, me alimento das experiências – às vezes alheias, às vezes pessoais. Como é a vida pós-bariátrica?
É tudo que a gente espera, claro. Mais disposição, auto-estima renovada, porções fracionadas de comida… E sente falta de algo? Eu sentiria falta de Coca-Cola. Ele não consegue mais beber uma Coca, enjoa instantaneamente. E não dá saudade, digamos, de uma pizza com refri?
Ele diz que não, ou melhor, que um pouco, mas não cria caso. E completa:
– Cara, como é gostoso beber água. 
– Água?
– Água. É um delícia beber água. Você não sabe como é. 
Eu fico pensando naquilo, na delícia da água. A mesma água que jorra das torneiras, a água que ondula as piscinas, a água que inunda a cidade no fim da tarde, a água que nos oferecem nos consultórios, casas, academias… água?
Água.
O espanto dura pouco, porque logo concordo. Lembro de todas as vezes em que chego da academia exausto e sedento não por um refri, uma cerveja, um vinho caro, mas por água. E como é incrível a sensação de virar dois copos gelados, sofregamente, quando tenho sede. Muita sede.
Mas, no dia a dia, desprezo a água. Gosto mesmo é de Coca, cerveja, destilados. Não é problema gostar disso, problema é desprezar aquilo que está acima de tudo, só por ser (ainda) abundante.
E fico pensando em quantas águas não se escondem por aí, em minha vida. Quantas coisas realmente importantes não ficam em segundo plano, diante de um certo glamour ou sabor inesperado.
Tenho insistido em que o corpo sabe mais do que a mente, sobre as coisas da vida. Acredito nisso. A mente pede a bebida da publicidade, mas o corpo só pede água. Todo corpo pede apenas: água.«
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