Riolindo

Todo mundo se irrita com haters, com ofensas gratuitas, com fofocas maldosas que inventam sobre a gente. Claro, qualquer pessoa com o mínimo senso de dignidade sofre ao ser injustiçada, ainda mais publicamente. Em mais de vinte anos de Internet e quase 10 de twitter, já caí mil vezes nesse armadilha. Não que a gente não deva punir ofensor grave, deve sim. Deve desmentir, denunciar, processar, punir mesmo. O problema não é o criminoso individual, mas o sentimento que fica quanto as ofensas são muitas. A gente soma tudo e fica com a impressão de quem o mundo todo está contra nós, nos atacando. E é aí que está o ponto: o mundo é grande e tem muita gente.

A soma de todas as coisas ruins ou erradas que dizem sobre você não corresponde a você. Além de você ter uma vida inteira e a ofensa acontecer em um momento da linha do tempo, somos muito mais do que publicamos. Por mais selfies e tweets e posts que uma pessoa publique, isso é uma pequena parte do que ela torna público, dentro de uma vida de infinitos detalhes.

Sempre senti isso, mas nesta semana especificamente, isso ficou claro pra mim. Estou no Rio de Janeiro gravando a 3a. temporada do programa Porta Afora, que tenho a honra de apresentar ao lado de Fábio Porchat. O Porta Afora recebe pessoas que contam histórias de viagem. Cada pessoa é um universo, com incontáveis galáxias de experiências, constelações de sentimentos e aprendizados. Essa semana, aprendi coisas lindas, daquelas que ficam pra vida toda, como a equação da felicidade que o Elio nos contou. Mas o que mais bate é…como as coisas não são o que parecem, como a realidade é diferente da expectativa, como a gente inventa medos que nos imobilizam e impedem que a gente transite feliz entre lugares e pessoas.

Entre os convidados, temos sempre estrangeiros que estão de passagem pelo Brasil ou que aqui vieram e ficaram. E TODOS repetem o mesmo mantra: o melhor do Brasil é o brasileiro. As pessoas se apaixonam pelo clima, pela vibe, pelo calor dos brasileiros. Diferente de muitos povos, a gente pega, beija, abraça, chora junto, ri alto. Mas o Brasil que a gente vê nos retângulos das telas é uma soma de horrores. Porque notícia é o que deu ERRADO, o ruim, o feio, o criminoso. Não tem notícia boa. Notícia boa não vende, como a gente diz. Então, cada lugar na TV vira a soma de tudo de ruim sobre o lugar. Nice, Istambul, Paris, Nova York, não são lugares perigosos, a gente é que fica com a ideia dos atentados horríveis e criminosos na cabeça e associa a essas cidades.

Agora, imagine se a TV ficasse o tempo TODO falando dos seus defeitos. “Fulano uma vez botou o dedo no nariz em público, tomou um porre e vomitou na festa, ficou apertado e fez xixi no mato, brigou com a própria mãe, saiu no tapa com seu irmãozinho, roubou a toalha do hotel’. Somando TUDO o que você fez na vida de ~socialmente desaprovado~ vai parecer que você é um ser humano horroroso. É? Claro que não. O Brasil também não é só carro queimado, fila no aeroporto, crime na comunidade, assalto na avenida, ódio na internet, violência na rua, corrupção e corruptor. Tudo isso existe E TEM QUE SER COMBATIDO, mas tem todas as coisas boas que temos e somos!

Então, vamos cuidar de tudo o que está errado, vamos melhorar, mas lembrando que a maioria dos nossos piores medos nunca acontecem, que as coisas que dão errado são poucas perto de tudo que dá certo o tempo todo,  que o mundo é vasto e cheio de possibilidade e que, mesmo quando algo de triste nos acontecem, temos gente pra dar abraço, ombro, apoio, alento, ao vivo ou online. Porque a mesma caixinha de comentários que nos traz mensagem de ódio, traz coisas lindas que nos aquecem o coração. É só olhar com os olhos da esperança.

Bom dia.