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Ontem fiz amizade com um bebê de pouco mais de um ano. Ele estava praticando a recém adquirida habilidade  de andar com as próprias perninhas, mas ainda com a garantia da mão direita segurando a de sua mamãe.

Vi que o bebê fofinho me olhou, sorriu, olhou de novo. Entendi como um contato visual positivo e fui até perto dele. Ele estendeu a mãozinha solta pra mim e eu a peguei. E assim, ele ficou sorridente e triunfante com o apoio duplo enquanto eu comecei uma conversa com sua mãe.

Hoje, caminhando no mesmo lugar até a praia, vi uma família de muitas mulheres e um menino de uns 3 anos perguntando onde ficava o mar. Uma das mulheres respondeu que era logo em frente. Seguimos, eles na frente e eu logo atrás. Assim que viramos a esquininha, ele avistou o Rio Una.  Maravilhado, não com a beleza da paisagem, mas com sua descoberta, ele gritava eufórico:

-Eu achei o mar! Eu achei o mar!

A terceira criança que observei estava com o pai e a mãe perto da minha barraca. Era um bebê já grande, também um menino, chupando o dedo, segurando uma fraldinha e tentando dormir, totalmente  acomodado no colo de sua frágil mãe.  Não vou fazer considerações freudianas, mas ao ver a mulher praticamente imobilizada em sua cadeira para acomodar o garoto, o pai, um homem bastante volumoso, pegou o garoto com jeito, tirou-o do colo da mãe, deitou-o numa canga na sombra, fez carinho nos cabelos e tentou-o fazer com que o filho dormisse. O menino se revoltou, abriu o berreiro, recusou-se a ficar na posição que o pai tentava impor, saiu gatinhando até os pés da mãe, subiu no colo dela, voltou pra mesma posição fetal anterior e ali se instalou, com a conivência dela.

O pai, com cara de contrariado, saiu com dois amigos e foi para a água. Juro por D’us, dava pra ver o sorrisinho de triunfo do menininho, de olhos fechados e dedo na boca, uma expressão totalmente marota de um nano David que derrotou o gigante Golias, na mais acirrada disputa do universo pelo amor da mamãe.

Vendo esses fragmentos de realidade, me perguntei se a gente é o que é a vida inteira, desde a infância, se cada ação ou gesto já é uma amostra do que seremos na vida adulta. O menininho que pegou minha mão para facilitar seus passinhos, será que ele vai ser sempre um adulto que recorre ao próximo para pedir ajuda? O garoto que celebrou sua descoberta do mar que era rio, passará a vida inteira assim, mais deslumbrado com o fato de ter sido ele o autor da descoberta do que pela descoberta em si? O garoto que fez manha e conseguiu derrotar o pai em busca do prazer que buscava no colo da mãe, vai crescer influenciado por esses pequenos acontecimentos?

Teorias para responder essas questões existem há muitos séculos, em diferentes áreas do conhecimento humano, mas mesmo sem buscar no Google as respostas, fico aqui, na preguiça da praia, me perguntando se cada um é uma versão madura da criança que sempre foi ou se é realmente possível mudar e virar a pessoa que a gente quer ser.