Pego o metrô todos os dias, pra ir e voltar do trabalho. A coisa que mais vejo é gente no vagão, em pé, esmagada, com fone de ouvido e mexendo no celular com uma mão enquanto a outra segura em algum cano.

E o que as pessoas fazem?

Dão likes.

Vão rolando as páginas do Facebook em velocidade quase superior ao metrô de São Paulo, dando likes com o dedão em tudo. Tudo. Em qualquer foto, em qualquer bobagem. Ninguém lê nada, porque não tem cérebro que dê conta de decifrar as letras que sambam no chacoalhar da composição. É só imagem, like, imagem, like.

Quando ‘acaba’ o Facebook, as pessoas vão para o Instagram, porque não há nada pra ver no trem e é preciso saber de tudo.

Depois da Estação Instagram, a próxima parada é o Whatsapp.

Aí tem que ler um pouco, mas são as figuras e vídeos que fazem sucesso.

Ninguém se importa se a notícia é falsa ou verdadeira, ninguém liga se você está magra, gorda, linda, viajando ou em casa, ninguém vê nada. Somos todos robôs, automatizados como os vagões, correndo as timelines nos trilhos da nossa vida online, só dando like em tudo, só pra marcar presença, só para parecer que tem uma vida social intensa.

O clique no like é a nova batida de ponto do trabalho. Só que na vida.

Os likes falam mais sobre nós do que sobre as coisas que clicamos. Falam mais sobre nosso vício do que sobre a virtude de quem posta. Clicamos, apenas, porque é tudo o que podemos fazer para criar a sensação de que ‘coisas estão acontecendo’ e não estamos perdendo nosso tempo no transporte público.

Dar like virou um hábito, quase um vício, um TOC.
Mas não é loucura.
Loucura é acreditar em todos likes. É fingir que todos lembramos do aniversário de todo mundo sem o Facebook avisar. Loucura é passar a publicar em função dos likes. É buscar os LIKES e não a expressão.
Expor-se sem parar, sem saber por quê, só pra ser lembrado, visto, aplaudido, publicar compulsivamente em busca de aplausos pode ser um sintoma de que alguma coisa não vai bem com você. Porque, na boa, não pode ser saudável, nem legal, você colocar a sua felicidade na mão dos outros, ou no dedão que dá like sem nem olhar .

Cada um faz o que quer, evidente, mas é sempre bom parar pra pensar se estamos vivendo nossa vida e usando as redes para falar sobre ela ou se não estamos fazendo, criando, produzindo nada em nossa vida e apenas vivendo arrastando o dedão na tela.
Pras mentiras confortáveis que mascaram as verdades inconvenientes, eu não dou like.
Porque por pior que seja o resultado do exame, é sempre melhor saber o diagnóstico pra começar o tratamento do que morrer fingindo que o sintoma não era nada.

🙂