Existem dois jeitos básicos de não ver alguma coisa: quando ela é rara e quando é abundante. A parte rara é fácil de entender. Você quase não vê águias no céu das cidades, porque elas raramente voam em centros urbanos. Contrariando a intuição, também não vemos os pardais, porque são tão abundantes que nem reparamos nele. Por estarem em todo lugar tornam-se invisíveis.  Acontece com coisas materiais e imateriais, com pessoas, atitudes, comportamentos. Acontece com o nosso racismo.

O racismo no Brasil, lamentavelmente, está em todo lugar. Muitas vezes a gente não vê, porque é na ausência que o racismo se faz presente. Você não vê um CEO negro na reunião da empresa, não encontra uma ginecologista negra quando marca uma consulta pelo convênio, não vê alunos negros na sala de aula de um curso de engenharia na universidade. Isso é fruto de todo um sistema social que privilegia brancos desde sempre, que permite ao branco a ascenção social que nega aos negros. E, mesmo quando um negro consegue estudar e ascender socialmente, muitas vezes é preterido por um candidato branco no meio do caminho. Tem que repetir sim, mil vezes, que o Brasil foi o último país da América a abolir a escravidão, evento histórico que  acabou há 130 anos com a Lei Áurea de 13 de maio de 1888.

Isso no papel, ‘oficialmente’ porque, na prática, o sistema ainda é vigente, está impregnado na cultura, na língua e por isso precisa ser apontado, destacado, para ser mudado. Como dizia meu professor de Termodinâmica no curso de Física da USP, Henrique Fleming, ‘o óbvio só é óbvio quando é ressaltado’.  É óbvio que existe muito racismo no Brasil e é só ressaltando e apontando a gravidade desse problema que poderemos, coletivamente, exterminá-lo.

-“Ah, mas mesmo que o racismo ainda exista, eu não sou racista, tenho até amigos que…!” – dirão alguns, dirão muitos, diremos todos.

E no ‘até’ a gente já vê o preconceito. A pessoa nem percebe, mas ao dizer ‘eu aceito um médico negro sem problema, inclusive uma vez eu fui no oftalmo que era negro’.  Ou seja, é a exceção que confirma a regra de que o ESPERADO é que o médico seja branco. Porque está naturalizado em nossa cultura que assim é, que assim tem que ser. Mas… como achar que é NATURAL esperar que todos médico seja branco num país de maioria negra como o Brasil? Não seria lógico, ‘natural’,  esperar que, senão a maioria, ao menos METADE dos médicos, engenheiros, professores, gerentes de banco, presidentes de empresa, fossem negros? Seria, se o mundo fosse justo, se a sociedade fosse equânime, se as oportunidades fossem iguais, COMO DEVERIA SER. Como podemos fazer com que seja.

E porque estamos mudando (pra melhor), como sociedade, é preciso discutir o racismo nas redes sociais, nos posts, nos vídeos, em toda produção de conteúdo que caracteriza nossa sociedade conectada que dispõe de tantos meios eletrônicos de expressão. Esses meios são de alta velocidade, alcance planetário e influenciam milhões de jovens e adultos. Sim, estou falando do caso do Júlio Cocielo.

Eu não o conheço pessoalmente. Sei que ele tem milhões de seguidores, é de Osasco, participava do Pânico fazendo aquele ‘humor de zuêra e molecagem’ e que casou recentemente. Se ele é bonzinho, humilde, bom caráter, se todos gostam dele, não sei dizer. O que eu sei é que vi preconceito, sim, em um tweet recente que ele publicou e em muitos posts do passado que ainda estavam no ar e ele indisponibilizou.

A associação de ideias contida naquele tweet era nítida. Ele ligou o jogador francês Mbappé à ‘arrastão’.  Um advogado de defesa pode tentar dizer (como Julio tentou, aliás) usar a velocidade como desculpa. ‘Mbappe corre tão depressa, é tão veloz, que poderia fazer um arrastão na praia’. Será? Será que a PRIMEIRA associação de ideias de VELOCIDADE é… arrastão? Participantes de arrastão são os mais velozes do mundo? Claro que não. Então não foi ‘apenas’ a velocidade.  E quando você diz ‘arrastão’ você pensa em quê? Numa tática de roubo em bando. E como é o bando? Mulheres norueguesas de biquini? Velhinhos asiáticos? Monges budistas de roupa vermelha? Não. Você fala ‘arrastão’ e pensa em um bando de moleques pobres que descem da favela para roubar velozmente os pertences de brancos que estão na praia. Todos pensamos, desde que o primeiro arrastão foi assim chamado.

Pensamos isso porque é isso que está arquivado na cabeça de todo mundo. Que se tiver um assalto envolvendo um branco e um negro você vai achar que o negro estava assaltando o branco. E nunca o contrário. Você nunca imagina que um branco de olhos azuis, de camiseta, bermuda e chinelo assaltou um negro de terno. Sim, nosso preconceito em todos os níveis é tão profundo assim.

Julio Cocielo não deve se achar racista, não deve nem saber que ele postou um tweet racista, talvez nem perceba mesmo. Certamente não teve essa intenção. Mas o racismo está lá, nas piadinhas novas e velhas, dele e de todos nós. Digo ‘nós’, me incluindo, porque nosso inconsciente pode nos trair. Como na cena de Matrix em que Neo vai conhecer o ‘oráculo’. Para o personagem e pra todos nós, o ‘oráculo’ seria um homem velho, sábio e branco. E eis que ele encontra uma mulher negra fazendo biscoitos no fogão.

Quer um exemplo similar? Imagine que você está numa viagem internacional, num grande avião, indo pra Nova York. Ou Paris. Você vai até o banheiro perto da cabine. A porta do cockpit está aberta. Você olha e vê o piloto e o co-piloto. Eles olham pra você e sorriem com um aceno. Imaginou? E ai, eles eram negros? Ou você imaginou o piloto e o co-piloto como brancos?

É difícil admitir que existem coisas que estão dentro de nós e que são horriveis, que são contrárias à boa imagem consciente que temos de nós mesmos. Nós, pessoas justas, bacanas, democráticas, sem preconceito nenhum. Só que não. Não somos a imagem que vendemos no instagram, não somos as pessoas que queremos ser, somos um somatório de infinitos dados, da forma como fomos criados, das coisas que vimos, ouvimos, lemos, vivemos, das experiências que tivemos, das informações que absorvemos em todos os veículos de mídia desde que nascemos. Cabe a nós fazer o exercício contínuo de auto análise, para nos tornarmos os humanos que queremos ser. Cabe a nós, como sociedade, estarmos alertas e nos ajudarmos mutuamente a combater todo tipo de intolerância. É um exercício coletivo, contínuo, que requer coragem, humildade, paciência, tolerância, capacidade de admitir e perdoar.

Não é fácil. Mas é o caminho a seguir. Não é possível que alguém acredite de verdade que a quantidade de dentes, cabelos, pigmentos, glóbulos, determine que uma pessoa tenha mais ou menos direitos, mais ou menos oportunidades. Não é possível que o corpo, a matéria, a carne, a imagem, impeça qualquer pessoa de ter acesso a tudo o que o mundo oferece. Não é possível que a gente queira, conscientemente, continuar a discriminar um ser humano apenas porque ele não é igual ao nosso reflexo no espelho.