Ao que tudo indica Harvey Weinstein manteve sempre um mesmo padrão de conduta com mulheres: agressivo, abusivo, criminoso. Ao longo dos últimos trinta anos, de acordo com relatos de pessoas que trabalharam e se relacionaram  com esse todo-poderoso de Hollywood, Harvey sempre olhou o mundo de cima pra baixo, impondo seu desejo a qualquer custo ou usando os piores artifícios para conquistar o que queria, da ofensa verbal à força bruta, passando pela tortura psicológica e ameaças. Em resumo: um déspota abusivo, um predador.

Tudo isso veio à tona a partir de uma reportagem da edição de 10 de outubro da revista The New Yorker, escrita por Ronan Farrow, que levou meses de apuração. A partir dessa corajosa publicação,  outras vítimas e testemunhas do comportamento predatório de Harvey Weinstein surgiram. A mulher de Harvey, Georgina Chapman, apoiou as atrizes que denunciaram os abusos do marido e pediu a separação. Harvey contratou um advogado e fugiu em um jatinho para a Europa alegando ter ido buscar tratamento para seu comportamento compulsivo.

Ao acompanhar o caso focado em Harvey, as perguntas surgem aos borbotões:

Por que todo mundo sabia disso e não dizia nada? Por que tanta gente apoiava ou era conivente com esse tipo de absurdo? Será que isso era um caso particular ou uma cultura da indústria cinematográfica americana? Ou acontece em todo o mundo? O poder corrompe todos os homens ou só os que já tem uma tendência a esse tipo de comportamento criminoso?

São respostas que precisamos buscar sem medo, porque por pior que seja o diagnóstico ele é sempre melhor do que ignorar  e morrer da doença. O que queremos não é apenas a punição para Harvey, mas o fim dessa cultura de abuso de poder. E que, sim, acontece no mundo do entretenimento, inclusive no Brasil. O famigerado termo “teste do sofá”, não foi inventado do nada. É real. Para muitos homens que sempre detiveram o poder, o inocente provérbio ‘cria fama e deita na cama’, acontecia na versão ‘deita na cama e cria fama’, como se o sexo fosse uma espécie de ‘pedágio’ obrigatório para conseguir um trabalho de destaque e assim, chegar ao estrelato.

Nos meus mais de 30 anos de trabalho na mesma mídia, a televisão, passei por muita coisa e vi de tudo. Por isso mesmo, compreendo o que sentem as vítimas, como a vergonha de contar, o medo de retaliação, a sensação de solidão causada pelo assédio, a descrença e, muitas vezes, o arrependimento de ter cedido à pressão para seguir adianta com a carreira. Hoje, com redes sociais, um mundo conectado, fica mais fácil encontrar outras vítimas e fazer denúncias coletivas. Temos que sair definitivamente da Idade das Trevas e, juntos, criar um novo Renascimento, com uma sociedade igualitária que não permita que nenhum ser humano seja explorado, abusado, assediado, molestado por outro.

E quem tiver problema de ‘compulsão por abuso’ que vá se tratar.
Pra nós, chega.