Outro dia, quando eu corria com minha filha, ela me disse:

– Mãe, você corre bem, mas você não tem autoconfiança.

Bingo. Não tenho. Aliás, tenho um pouco, que desenvolvi com muito esforço porque, de verdade, nunca tive.

Minha filha é jovem, alta, linda. Agora estou ficando velha, sempre fui muito baixinha e nunca me achei bonita.
E, acredite, menina que se acha feia desenvolve problemas.

Até a puberdade, quando eu era criança, não tinha consciência de mim mesma. Eu só queria brincar e explorar o mundo.
Mas quando os hormônios mudam nosso corpo e surge o interesse pelo outro, quando nasce a libido e a biologia nos impele pra buscar parceiros, a coisa muda.
O corpo passa a ter uma função nova, que vai além da diversão, ele passa a ser percebido como um instrumento para atrair desejo. E ai começam todos os males.
Quem não se acha bonita, atraente, interessante, começa a se sentir menor, por baixo, infeliz, desafortunada.
Ficar adolescente e perceber-se feia é como acordar no meio do mar e descobrir-se sem bóia, água, comida e salvação. E sem saber nadar.
Falo com conhecimento de causa.
Quando entrei na puberdade eu me achava feia. E tinha que dar um jeito de garantir meu sucesso social. E eu passei a investir na minha mente.

Eu era a menina inteligente. A que  passava em testes psicotécnicos e psicológicos, a que matava as charadas, que sabia primeiro, que aprendia tudo. Eu era a melhor aluna, a que tirava notas mais altas, a ‘precoce’ da família. A que foi convidada pra entrar pra Mensa.
E quanto mais eu estudava e aprendia, mais eu me aprimorava.

Em vez da frase que hoje ouvimos ‘sou feia mas tô na moda’, da Tati Quebra Barraco, eu pensava ‘não sou bonita, mas sou inteligente’.

Eu conheço bem esse esquema, porque tenho quase uma vida inteira investida nisso ai.
Sempre fui boa de matemática e fui estudar o que todo mundo detestava: física.
Entrei na USP sem cursinho, quando o vestibular nem era de teste.
Fiz o Bacharelado em Física. Fiz 2 anos de pós graduação, mas não defendi a tese, o que fez com que eu não recebesse oficialmente o grau de Mestre em Física Nuclear. Ou seja, eu fiz todos os créditos da pós (2 anos), mas não fiz a última etapa pra ter o título. Como disse o rapaz da secretaria quando fui pegar meus documentos “você sabe guiar o carro, mas não tirou a carteira de habilitação”.

E qual a relação entre autoconfiança, beleza e estudar e ser bom aluno?
A carteirada.
Sempre que alguém me chamava de baixinha, gordinha ou feinha eu rebatia ou pensava: mas eu me formei em Física na USP, um curso difícil, numa das melhores universidades do mundo, entrei sem cursinho, bla bla bla. Era um antídoto pra minha insegurança pessoal.
E o que mais eu queria? O amor de todo mundo.
Eu queria aplauso, eu queria ser reconhecida, eu queria que outras qualidades minhas DELETASSEM a imagem física de que eu não era uma figura esteticamente agradável.

E, olha, não estou sozinha.
Veja como TODOOOOOOOOS os que ficam ricos e famosos, artistas, vlogueiros, jornalistas, assim que ganham uma grana ‘arrumam’ a aparência. A gente muda o cabelo, arruma os dentes, emagrece, faz implante, implanta coisas, tira coisas.  Os exemplos são tantos que nem são necessários aqui.
E por que?
Porque é difícil ser feliz sendo rejeitado num mundo que privilegia a casca, a aparência estética e despreza todo mundo que não se encaixa.

Então, temos duas opções:

  • mudar o mundo
  • mudar a gente

O caminho solitário é mudar a si mesmo e ‘atender’ as exigências do mercado da beleza. O caminho mais curto é sempre a rendição.
O caminho social é a gente se unir e criar um mundo onde isso não seja importante, seja só uma coisa natural , ah, fulano é lindo, ok, fulano é inteligente, ok. E onde ser uma boa pessoa, bom cidadão, ser justo, correto, gentil e humano sejam valores maiores que ser magra.

O caminho ideal é a gente ser feliz como é e, se não for, buscar um resultado que nos deixe feliz.

Porque quem não tem autoconfiança, quem não se aceita, quem é rejeitado, tem grande chance de desenvolver falta de auto-estima, rancor para com o mundo, inveja de quem tem o que não temos, crueldade para com os objetos de sua inveja ou, pior: pode criar uma mentira pra si mesma. Vestir um personagem que amplia suas qualidades para minimizar suas inseguranças. E, de tanto vender esse personagem, passar a acreditar nessa mentira. E daí pra preferir o mundo do faz-de-conta-cor-de-rosa do Instagram é um passo. Acorda. Isso aí não é a vida real. Isso aí é a Matrix da Ilusão.

Minha insegurança me faz sentir inveja, minha insatisfação me torna cruel, meu desamor-próprio impede que eu consiga correr com toda velocidade de que sou capaz nas minhas provas de corrida, porque acho que todo são fisicamente melhores que eu e eu não mereço ganhar e, cruzar a reta final, já me basta.

É contra esses monstros interiores que luto todos os dias.
São esses monstros que nos irritam quando os vemos nos outros.