Sempre me senti em casa na Internet. Postava livremente, dizia o que pensava, discutia e conversava sem aquele monstro que nos censura antes que os outros o façam, chamado MEDO. Pois outro dia, me vi numa situação muito desagradável, dominada por esse medo deselegante e petrificante. Ao mesmo tempo que eu queria postar um sentimento no Twitter eu já antecipava que ia ser mal-interpretada e que, esse pequeno texto de desabafo poderia me custar horas de briga e esclarecimento. E, pra economizar energia e paciência, não postei.

Não postei, masnão fiquei feliz com essa omissão. O silêncio não modifica nem melhora as coisas, ao contrário, agrava. É como achar que é melhor não fazer exames médicos pra não saber que tem uma doença. Ora, por mais difícil que seja (e é), é melhor descobrir logo o que você tem pra começar a tratar. Muitas (talvez quase todas) as doenças, quando tratadas precocemente, têm mais chances de serem curada.

O medo que eu senti, e que depois identifiquei, é o medo de ser linchada. Porque quando você vai contra uma opinião ~popular~ naquele momento, uma zoação ou revolta que está nos ~trending topics~daquele momento, você é a pessoa correndo na direção do estouro da boiada. Aliás, nem precisa ser contra, basta questionar algo que uma massa gigante, num dado momento, tenha adotado como verdade. É linchamento na certa, chacina moral, que pode ter consequências realmente ruins.

Neste momento, por exemplo, a massa está revoltada com a campanha ~gente boa também mata~. A campanha foi mal formulada, choca, desagrada, mas ela está baseada em algo real. O que causa atropelamentos e mortes no trânsito não é o caráter, mas o COMPORTAMENTO do motorista. A pessoa pode ser gentil, amorosa, boa filha, ativista de causas bacanas, MAS se ela beber e dirigir ou dirigir olhando o celular, ela pode SIM atropelar e matar.

Porém, o texto foi mal feito, deixa margem pra interpretações equivocadas. Mas, nesse momento, dizer que a campanha não está errada é atravessar a rua com milhões de motoristas embriagados pelas suas certezas, dirigindo e postando que a campanha é ruim. OU seja, você VAI ser atropelada por gente boa, ruim, por todo mundo. E, repito, a comunicação da campanha foi errada. Não foi clara, não foi didática, passou a impressão errada de que quem mata é gente que faz o bem, igualou ativistas e pessoas bacanas a assassinos. De qualquer forma, é verdade que qualquer pessoa pode fazer mal a outra quando age de forma irresponsável.

A atriz e diretora Mika Lins abriu uma discussão sobre essa campanha em sua página no Facebook. Li os comentários e vi posturas bem interessantes. Também tem os binários que apenas dizem é boa, é ruim, sem argumentação alguma,

E, claro, há os que acham qualquer coisa que o povo tá achando. Porque querem ser parte e aderir, nada mais. Querem brincar junto, seja lá do que for. Só querem participar.

Eu ainda tenho medo do linchamento moral online, de ser soterrada por uma avalanche de ódio e incompreensão, mas não acho certo ficar calada. Talvez, com o tom certo, com o texto certo, seja possível levantar um ponto, fazer alguém parar e repensar antes de atirar ofensas. Talvez seja só uma ilusão da minha cabeça.

Só sei que o mundo não é binário, que não existe só gente boa gente má, que não estamos divididos entre mocinhos e bandidos, que todas as coisas dão trabalho e são complexas, que quase ninguém diz a verdade, que poucos se conhecem, que o mundo é confuso. E que numa era maravilhosa onde temos tanta informação, o que reina é a falta de entendimentos dos fatos. E ai, nossa boa intenção, nossa opinião sincera, fica boiando num mar de confusão.

Por favor, alguém joga uma boia pra mim.