Minha filha Anita e eu treinamos corrida juntas. Três vezes por semana vamos ao Parque da Água Branca e na USP onde nossa assessoria de corrida atua. É um serviço pago que oferece orientação e apoio logístico, com planilhas, água em vários pontos do percurso, exercícios de alongamento, etc.

O parque é público, a USP é pública, a assessoria que pagamos é uma empresa privada que tem licença para trabalhar nos parques.

Ontem, porém, foi feriado e não teve treino. Foi feriado para nós aqui em casa também, mas por causa do Yom Kippur, o dia do perdão para os judeus. Por tudo isso, deixamos nosso treino para hoje, por nossa conta. Assim, Anita e eu fomos correr no Estádio do Pacaembu.

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Tenho carteirinha do Pacaembu, como moradora da região. Não pago nada pra entrar nem para tirar o documento em meu nome. Posso entrar e sair nos horários de funcionamento, usar as dependências, beber água. E assim fomos até lá para correr.

O dia está abafado, a pressão atmosférica parece estar mais alta. Corremos e transpiramos muito e precisávamos nos hidratar. Saimos do Pacaembu e, assim que passamos a porta, minha filha disse que precisava beber água. Eu disse que na calçada bem em frente ao estádio, onde fica a loja de roupas esportivas, tinha um bebedouro. O acesso estava aberto e havia um guarda na catraca. O bebedouro fica logo depois da catraca da entrada que pertence ao Museu do Futebol. Tinha um guarda na catraca. Dei bom dia e disse que queria atravessar a porta ao lado da catraca (que estava aberta) pra gente tomar água. São cerca de 10 passos depois da catraca. Ele disse que não podia deixar. Eu pedi por favor, disse que estamos treinando para uma meia maratona neste domingo. Ele disse que não podia deixar. “Mas é só um gole de água, por favor”.

Não, ele disse.

Ele não pode deixar. Porque não pertence ao Pacaembu. É do Museu do Futebol. Tem câmera de segurança. E se uma pessoa for até o bebedouro sem ter ingresso pra entrar no Museu, ele ‘se complica’.

O Museu usa o espaço da coisa pública, mas é privado. E tem regras. E o emprego dele é da empresa privada. Ele tem medo. Medo de perder o emprego por deixar duas corredoras com sede andarem dez passos pra tomarem dois goles de água no bebedouro quando alguém ‘olhar depois nas câmeras de segurança’, como ele disse.

  • Mas, por favor, é rapidinho, a porta está aberta, o bebedouro é logo ali, a gente é do bairro, tem carteirinha da Estádio que é da Prefeitura!
  • Mas aqui não tem nada com o Pacaembu, disse ele, é do Museu.

 

Essa é a diferença entre a coisa pública e a coisa privada.

A coisa pública privilegia o público, as pessoas. A coisa privada privilegia o lucro, o dinheiro.

A coisa pública é de todos, deixa usar um banheiro, um bebedouro.

A coisa privada é assim: não paga, não entra. Nem na escola, nem no banheiro, nem no hospital.
Tem exceções, mas em geral, as empresas privadas negam até água pra quem tem sede.

 

 

Update – resposta do Museu do Futebol
Olá Rosana! Pedimos desculpas pelo ocorrido.Prezamos o atendimento ao público.”
– https://twitter.com/museudofutebol/status/786579484619083776