No começo da Internet, quando tudo era mato e as infovias  ainda eram ruas de terra que só tinham uma e outra homepage, era fácil descobrir se uma notícia era falsa. Uma vez conectados em dial-up e munidos de um pouco de paciência e espírito investigativo, bastava fazer algumas pesquisas no Altavista, cruzar alguns dados e chegar a uma conclusão. Nessa época, na primeira metade da década de 90,  os chamados ‘usuários’ pouco publicavam, porque para ‘subir’ informações para a ‘Rede Mundial de Computadores’ era preciso ter várias ferramentas e conhecimento de html. Fora o custo.

Era assim, mas não era bom. Lenta e inacessível para o cidadão comum, a Internet não parecia nada democrática. Depois vieram os blogs e começou a abertura. O blog era gratuito, já vinha com tudo ‘mastigado’. Era só abrir uma conta e sair publicando. Foi um grande avanço para quem queria não só navegar, fazer download e se comunicar, mas também tornar suas ideias visíveis para o mundo. Com os blogs em português, em serviços nacionais, melhorou ainda mais.

Depois veio tudo o que sabemos e vivenciamos, como   a popularização dos smartphones e dos planos de dados (mais ou menos),  a chuva de apps e as redes sociais. E, junto com esses bônus todo veio o ônus; temos acesso a todas as informações do mundo, mas não sabemos diferenciar o verdadeiro do falso; temos acesso a todas as pessoas do mundo, mas somos ofendidos por detratores anônimos. Parece coisa de maldição de Cassandra, que podia prever tudo o que ia acontecer, com o detalhe de que ninguém nunca ia acreditar.

Felizmente, nesse mar de confusões obscuras existe sempre uma tendência humana pela opção de luz. Muito antes do E.T. Bilu tornar a frase famosa, a gente já buscava conhecimento.

Mas há um obstáculo a ser transposto nessa busca, a pressa.

A pressa não apenas é inimiga da perfeição, como também é hater da informação.

A pressa nos faz ler manchetes de forma errada, ler certo e entender errado, ler certo, entender certo e não perceber que a coisa toda está errada. Todos nós já repassamos informações falsas, fake news, notícias velhas que estavam ao lado da nova porque o algoritmo que relaciona conteúdos nos induziu ao erro. Acontecer é normal, o problema é quando acontece sempre e com todo mundo. E é o que está acontecendo.

Sempre soubemos que um link é um link, né bebê? A gente clica e abre, tanto faz se é da CNN, BBC de Londres ou da Tia Ordália do Whatsapp que repassou porque ficou com medo de morrer em uma semana caso quebrasse a corrente.

O resultado é que hoje as notícias falsas disputam a preferência do povo com as verdadeiras, ganhando em muitas ocasiões.

E por que o ser humano preferiria uma notícia falsa a uma verdadeira? O que ela tem de mais palatável?

Bom, primeiro que a pessoa não tem certeza que ela é falsa, então já facilita a entrada. Segundo que, sendo falsa, ela foi ‘construída’ por alguém (ou alguns), com algum conteúdo intencional, adicionado de corante, espessante, conservante e sabores artificiais deliciosos, embaladas de forma atraente. Exatamente como acontece com a comida. Por que tanta gente prefere um saco de salgadinho estufado, sem nenhum nutriente, com sabor artificial de queijo a um prato de brócolis?

Sei que ao publicar isso, serei só mais um grão de areia na praia. Mesmo assim, vale sempre lembrar, questionar, pensar, em cada coisa que fazemos na Internet. Tentar diminuir um pouco a pressa, respirar mais fundo e, na hora do ‘pelo sim pelo não’, escolher o pelo não e não repassar coisas sem ter certeza de que são verdadeiras.

Porque ninguém vai morrer por não repassar uma informação pro seu grupo.
Mas se a Internet se tornar um mar de mentiras e o mundo um oceano de salgadinhos de queijo, vamos morrer antes da hora. Ou viver mal o tempo todo.