Esses são o Otto e a Ruby, os dois cachorrinhos da nossa casa. No domingo passado, meu marido e eu fomos até um paarque perto de onde moramos para um dos muitos passeios diários. Para aproveitar o sol, sentamos por um instante num banco da praça, junto com muitos outros donos da cachorros que faziam o mesmo que nós. O dia estava lindo e agradável, crianças brincavam de fazer bolhas de sabão ali perto, uma moça passou por nós enquanto passeava com dois pugs ao lado de seu parceiro. Foi exatamente nesse momento que uma senhora, com seus dois cachorrinho em pé no gramado,  começou a gritar com a dona dos pugs de forma extremamente agressiva e acusatória. Apontando o dedo para a moça ela berrava:

– Eu vi! Eu vi! Você estava puxando esse cachorro! Ele está doente, ele não consegue andar! Eu vi você batendo nele! Você não pode ter bichos! Eu vou chamar a polícia!

Todas as pessoas se viraram para ver o que estava acontecendo, nós inclusive. Do nada, a moça parada com os pugs e a senhora que a acusava viraram o centro de uma cena horrorosa.
A moça dos pugs ficou tão indignada que não dizia uma palavra. Já a senhora vociferava sem parar, buscando algum tipo de adesão, que não acontecia.

Um tanto quando chocada e sentindo uma imensa empatia pela moça dos pugs, troquei um olhar com ela e ela, correspondeu, dizendo pra mim:

– Meu cachorro tem duas hérnias de disco, ele tem dificuldade pra andar, mas eu não sei o que esse senhora está falando…. não estou entendendo nada…

Foi então que meu marido responde para a senhora enlouquecida. Ela veio pra cima do meu marido, ficando a poucos centímetros dele, dessa vez, atacando-o:

-E você não tem que se meter na minha vida! Se você tem cachorro tem que defender os cachorros e ficar contra essa mulher! Eu vi tudo!

Seguindo o preceito de que com loucos não se discute, meu marido não a contrariou, o que a deixou ainda mais furiosa.

Um homem atrás da gente resolveu enfrentar a senhora e ela imediatamente desfocou do meu marido e focou no outro dono de cachorro.

Enfurecida, sem conquistar nenhum apoio, ela saiu gritando com seus dois cachorrinhos e uma senhora bem velhinha que a acompanhava.

Nós, os ‘gritados’ começamos a conversar sobre a cena que se desfez. A conclusão foi unânime: a senhora deve estar com algum problema sério pra criar um barraco inadequado e sem fundamento como este, agir dessa forma tão violenta.

E então me lembrei da Comunicação Não-Violenta, ou CNV, criada pelo psicólogo americano Marshall Rosenberg.

A comunicação não-violenta busca resgatar em cada ser humano a empatia, a capacidade de se expressar claramente e de ouvir o outro, entendendo as reais necessidades de cada pessoa. O ponto de partida é que todos nós temos a capacidade de sentir empatia e compaixão e que todos os seres humanos têm as mesmas necessidades básicas. E cada uma de nossas ações é uma estratégia para tentar atender uma ou mais dessas necessidades.

Em geral julgamos de forma apressada, sem compreender as necessidades do outro e partimos para um tipo de ação a partir desse julgamento. O ideal é tentar ver as coisas com neutralidade, sem julgar. Outro ponto importante é dar nome ao que sentimos e usar de clareza na hora de fazer qualquer pedido ou comunicação.

A senhora que gritou não parecia bem, nem feliz. Talvez ela tivesse alguma necessidade naquele momento, de chamar atenção, de ser ouvida, de receber algum tipo de apoio. Não há como saber sem conversar com ela. Porém, estava claro que agredir de volta, responder a sua ira, de nada adiantaria. Seria como tentar apagar o fogo com gasolina. O melhor a fazer era não fazer nada. Não aceitar aquela carga, não interagir com ela.

Aconteceu ao vivo na praça, mas poderia ter sido em qualquer outro lugar, até mesmo nas redes. Estamos todos assustados com a falta de amor e civilidade a nosso redor. É como se estivessemos num processo de ‘descivilização’. Ao mesmo tempo, olhando por outro prisma, isso acontece porque muita gente não tem suas necessidades básicas supridas. Necessidades de amor, cuidado, compreensão, segurança, estabilidade, esperança. Não acho que as pessoas tenham se tornado violentas repentinamente, mas pode ser que estejam realmente desassistidas, desalentadas e a forma como conseguem externar essa carência seja pela violência.

Não sei qual a solução, mas certamente, mudar o que podemos em nós mesmos é um bom começo. Tentar não agir de forma violenta, não julgando, não se contaminando, sentindo empatia e compaixão pelo outro.
Lembrando sempre que, de qualquer forma, o outro do outro é você. E assim, tratando nosso semelhante da forma como nós mesmos gostaríamos de ser tratados.