O que vemos nessa foto? Eu e minha filha, a jornalista Anita Efraim, no final de uma corrida, segurando nossas medalhas. No peito, nossos números de inscrição na prova. E, sim, o meu é diferente do dela, porque tenho mais de 60 anos. E o que mais podemos tirar, além das imagens? Isso mesmo, tudo o que o pensamento quiser. De gente que se incomoda e vê as postagens como ‘ostentação’ a pessoas que se estimulam para começar a praticar corrida justamente por ver uma mulher da minha idade fazendo provas e correndo meias-maratonas. Mas vamos aos fatos, começando pelo Instagram.

Ouvi um relato na semana passada que me pareceu genial. Dudu, roteirista que está num projeto em que também estou, contou que uma amiga estava olhando suas fotos  e comentou: “eu tenho inveja da minha vida no Instagram”. Pra pensar. Porque, olhando só as fotos postadas a nossa vida parece maravilhosa. Não só porque melhoramos o que postamos com filtros e edições, mas porque omitimos todas as fotos em que não saímos bem e não estávamos em momentos especiais. A vida do Instagram, realmente, é uma ilusão. Dai a frase impactante da amiga do  Dudu. Nossa vida no Instagram não é a nossa vida de verdade, mas a vida que queremos que os outros achem que temos.

Pois vou falar da vida de corrida como ela é.

Corridas de rua são cada vez mais populares. Procurando bem você acha corridas para fazer nos 52 fins de semana do ano. Qualquer pessoa pode fazer inscrição, é só pagar. Simples assim. Pagou, está inscrito, ganha um kit com número de peito, camiseta, 4 alfinetes, uns brindes, uma mochilinha com anúncios dentro. Tem melhores e piores, mas em geral, tem o kit. Depois de cruzar a linha de chegada você ganha uma medalha e, com sorte, uma banana e uma bebida. Pode ser uma água de coco, um copo dágua, uma maçã pra quem não gosta de banana.

Embora a prova seja para quem vai correr, muita gente se inscreve e vai caminhar, só para usar o percurso impedido para carros. Tem de tudo. Tem a elite que corre pra pegar o primeiro lugar, tem quem corra pra melhorar seu tempo e se divertir, tem quem participa da prova só pra postar fotos nas redes sociais. Aliás, já vi isso. Uma garota estava andando, começou a correr para gravar um vídeo dizendo que estava correndo, terminou o vídeo, voltou a andar. Tem gente até que mente pra si mesmo e ‘corta caminho’ na prova, só pra chegar antes ou sei lá o quê. Não consigo entender quem paga pra mentir pra si mesmo, mas, cada um cada um.

Dito isso, fica claro que a medalha não é pra quem foi bem, mas pra todo mundo que se inscreveu e cruzou a linha de chegada, mesmo que seja o último. Não é preciso sentir inveja da medalha de alguém, inscreva-se, compareça, cruza a chegada e pegue a sua.

Agora, falemos sobre a alegria dos nossos sorrisos. Anita tinha motivo pra sorrir, fez seu melhor tempo numa corrida, seu record pessoal, merecidíssimo. Nunca vi uma pessoa tão dedicada e disciplinada, daí seu progresso. Já eu, estou rindo porque ainda estou viva e tenho pernas, porque fiz uma prova bem ruim. As duas semanas que viajei e meditei me trouxeram, além de uma mente tranquila, uma cintura maior, um peso maior e uma dificuldade muito maior, por causa da falta de treino. Num dado momento, com dor na perna e vendo meu tempo piorar, olhei o relógio e vi que meu pace estava chegando a 6 minutos por km, o que arruinaria totalmente meu tempo. E o que pensei? Em correr mais? Não, pensei em desistir. Fui inundada por todos aqueles pensamentos pessimistas e derrotistas como ‘minha vida de corredora acabou’, ‘estou velha demais para isso’, ‘nunca farei minha sonhada maratona’, ‘é o fim de tudo’. Juro que pensei só esse tipo de coisa. A famosa Lei de Jacque, ‘já que estou mal, melhor desistir’. Mas aí apareceu a Odete, nossa amiga de treinos que, além de ser elite como corredora, é certamente pódio na hierarquia dos seres humanos. Ela foi ‘me buscar’só para me encorajar. Disse pra eu andar um pouco (nunca faço isso em provas) e quando estivesse bem, voltar a correr. Fiz isso. E, subitamente, me senti bem. E comecei a correr muito. Outra amiga, Camila, me estimulou. Mais um professor da assessoria, o Lucas, cruzou comigo e disse que faltava pouco. E quando eu estava correndo bem depressa, Odete voltou, quase na chegada, gritando ‘vai guerreira! Vai que você é guerreira!’. E a guerreira aqui subiu a ladeira (sacanagem, a chegada é uma ladeira!) e cruzei a chegada num pace 4’27”, o que é bem rápido pra mim.

O tempo foi bom? Não. Foi péssimo. Mesmo assim fiquei em quinto lugar na minha categoria. Ou melhor, terceiro, porque a mulher que ‘chegou em primeiro’, na verdade levou 50 minutos pra correr 5 e não 10 km. Como disse ela, ela ‘se enganou na hora da inscrição e colocou 10’, mas correu 5. E a 3a. colocada também está com tempo de 5km marcada como categoria 10. Tanto faz, mas só pra dizer que assim como nas fotos, nem tudo é o que parece.

Assim como corri mal nesse dia, mas fiquei feliz na foto, coleciono incontáveis fracassos. Projetos que não deram certo, trabalhos que não foram adiante, ideias ruins, atitudes erradas. Me arrependo de muita coisa que fiz e disse, mesmo tendo aprendido com elas. Tenho sucessos e fracassos como todo mundo e minhas fotos, mesmo juntando todas, não formam o filme da minha vida. Nem o meu, nem o seu, nem o de ninguém.

Acho importante lembrar disso, por mais óbvio que seja. Porque o que vejo é muita gente sofrendo por invejar a vida irreal do outro, tentando construir uma vida irreal pra si. E de mentiras, disfarces, fake news e ilusões também se vive. Mas, certamente, também se morre.

A lição que aprendi no retiro de meditação, o mesmo que me fez engordar e correr mal, foi ‘be kind to yourself’, seja gentil com você mesma, seja generosa com você mesma. Correu mal nesse dia? Tudo bem! Eu acordei cedo, eu fui, eu tentei, eu aceitei ajuda e cheguei. E isso não sai na foto. Fica só no meu coração. E na forma com que esse coração aprende a tratar os outros. <3

Se quiser um conselho, não busque ser  ou ter a ‘vida perfeita do Instagram’. Apenas tente ser gentil com você mesma. E assim, com os outros.