Passei boa parte do meu domingo lendo sobre o caso de Everson Henrique de Oliveira, também conhecido como  ‘Everson Zoio’ que relatou, num vídeo, ter feito sexo com sua ex-namorada de forma não consentida, também conhecido como crime de ‘estupro de vulnerável’. Caso você não tenha lido mais detalhes, tem dois links, aqui e aqui.

Passei por muitos pensamentos, sentimentos, reflexões, confusões mentais e busquei diferentes visões e opiniões para poder falar sobre esse assunto tão grave, sem deixar de analisar o caso específico desse rapaz, mas sem cair na armadilha de falar apenas dele e esquecer os milhões de pessoas que, em algum momento, acharam ‘engraçado’ ouvir um relato de estupro, riram, deram likes, compartilharam. Milhões, sim, porque só no Instagram Everson tem 2 e no YouTube mais 10 milhões de assinantes.  E aqui estão algumas das coisas que concluí:

-> Everson diz ‘estou sendo acusado de estupro’ – como bem observaram no Twitter, ele não foi ‘acusado’ ele RELATOU espontaneamente um caso de estupro, muito diferente. Ele não é a vítima de uma acusação, ele produziu uma vítima de crime, a ex-namorada, ao estuprá-la.

-> Esse caso com a ex- não teria sido o único. Em outro vídeo de 2015 ele conta que fez sexo com uma garota que dormia porque ‘tinha que resolver aquela vontade’ já que a garota ‘dormiu e deixou-o na mão’.  Essa é a visão unilateral e criminosa do abusador, ele não leva em conta a vítima, apenas a ‘sua vontade’, como se seu desejo fosse soberano e justificasse o estupro da pessoa vulnerável.

-> O YouTuber ficou famoso fazendo ‘desafios’ físicos na linha ‘Jackass’: em seu vídeo mais visto, com 17 milhões de views,  ele coloca a mão dentro de um formigueiro e fica com a mão coberta de picadas. Assisti também a um perigoso vídeo em que ele ateia fogo ao próprio corpo. Um menino muito jovem tentou fazer o mesmo e teve queimaduras muito sérias, mostradas numa reportagem de Roberto Cabrini no SBT, chamada Jogos Mortais. Ao ser exposto ao resultado do próprio vídeo, olhando a imagem  do garotinho queimado, Everson pede desculpas ao menino e sua família alegando que sua intenção é ‘trazer o humor’.

-> Em todos os casos que vi, Everson parece não ter a menor consciência de coisa nenhuma. Ele não acha que abusar sexualmente de uma menina que está dormindo seja estupro. Em sua defesa, inclusive, ele diz que ‘inventou’ a história desse abuso sexual e que quando contou o caso, todo mundo riu. Porque, se todo mundo riu e gostou, se todo mundo concordou e se ele se tornou famoso ele só pode estar certo. É como se ele dissesse ‘ué, mas eu me tornei rico e famoso porque vocês GOSTAM das coisas que eu digo e faço, por que estão implicando comigo agora??’ . Ele se sente VÍTIMA porque ‘pegaram um video ANTIGO (do ano passado…)’ e resolveram cair em cima dele como fizeram com Julio Cocielo. Everson culpa o ‘politicamente correto’ por estar sendo execrado, como se o erro estivesse nos que o criticam agora e não no que ele mesmo fez. A impressão que tive é que ele não tem consciência, noção, informação, nada. E agora vai a pergunta:

-> Se ele tem tantos milhões de seguidores, podemos concluir que todos eles também são igualmente sem noção? Todos os que viram e aprovaram o conteúdo desses relatos de estupro e riram, acharam que a história era boa? Ninguém parou pra dizer ‘epa, mas espera ai, você estuprou uma garota que estava inconsciente?’. Provavelmente nenhum deles viu ‘nada demais’ nessa história que agora, ele alega ter sido ‘inventada’ porque ‘homem gosta de exagerar pros amigos’, pra contar ‘caso’, como disse Everson. E contar caso de estupro é bacana? Faz de você um cara legal perante os amigos? Cejura?!?!?!?

O que choca, como tantos mencionaram, é a naturalização do estupro.  Como se fosse OK um homem abusar de uma mulher que está dormindo porque ‘é sua namorada’, como se ele fosse proprietário daquele ‘corpo’, como se o ‘corpo’ que ele usa pra satisfazer ‘seu desejo’ não contivesse um ser humano com direitos e desejos também. Como se o homem tivesse o direito ‘legítimo’ de continuar com um ato sexual porque afina, ‘a garota começou e largou o cara na mão no meio’. Como se, mesmo numa história inventada, estupro fosse um bom tema pra fazer humor.

E o que temos que fazer, como sociedade, com esse caso? Como lidar com a realidade de que tantos milhões e milhões de jovens e crianças ‘curtem’ esse tipo de conteúdo e comportamento, pensamento e, principalmente, como modificá-la?

A resposta é sempre a mesma: ensinando. Explicando. Repetindo que quando uma mulher diz ‘não’  é ‘não’, de fato. Que o homem não pode impor seu desejo sobre qualquer outra pessoa, que sexo sem consentimento é estupro, que o estupro é crime. E punindo. Punindo quem comete um crime, uma vez que esse crime esteja provado.

O que vemos até aqui, e que nos faz sofrer ainda mais, é que além de não ter punição ainda tem a premiação. Por ter tantos seguidores, por exercer ‘influência’, marcas e empresas patrocinam pessoas assim, sem levar em conta que TIPO de influência ela exerce.

Para não ficar deprimido, vale lembrar que, ao contrário do que disse a matéria da Vice sobre o caso, não são todos os youtubers que agem assim, nem de longe. Existe muita gente com canais maravilhosos, úteis, divertidos, educativos, inteligentes, bacanas e que melhoram a nossa vida.