Spime

Uma das promessas tecnológicas mais interessantes deste século é o surgimento da Internet das Coisas, que vai estender o universo dos dados digitais para objetos de uso cotidiano, como roupas, óculos, sapatos, escovas de dentes, garrafas de vinho, caixas de cereais, etc. Cada objeto terá um chip quase invisível, com um microtransmissor de rádio (RFID), o que transformará o objeto em um ponto dentro uma imensa rede de coisas. Será localizável via GPS e com um grande volume de dados sobre sua própria existência.

O neologismo “spime” foi criado pelo escritor americano

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) para dar nome aos produtos industriais que devem surgir no século 21, como uma consequência da Internet das Coisas. A palavra “spime” combina “space” (espaço) e “time” (tempo), para designar um objeto que existe tanto no mundo real de átomos como no mundo eletrônico de bits. O spime só se torna completo quando essas duas metades estão presentes.

Os spimes ainda são hipotéticos: se se tornarão reais quando as linhas paralelas da tecnologia, da regulamentação e dos direitos dos consumidores se encontrarem no horizonte. Isso significa que há um longo caminho até que as empresas, governos e cidadãos cheguem a um consenso sobre como devem ser esses novos objetos. Definir padrões, criar leis e estabelecer limites para que os spimes possam existir é uma tarefa muito complexa. Mas é razoável prever que os primeiros spimes de sucesso devem surgir dentro de cinco a dez anos, inicialmente em escala local e regional.

O spime será um objeto integrado ao usuário e ao ambiente ao mesmo tempo. Desde seu projeto até o seu destino final, o spime conterá um cronograma atualizado continuamente. Seu ciclo de vida da prancheta até a reciclagem será precisamente definido – como nenhum outro produto da Era Industrial chegou a ser. Esse é o principal aspecto positivo do conceito do spime: um produto industrial criado com responsabilidades sociais e ambientais embutidas e regras claras sobre seu ciclo de vida completo.

O lado negativo do spime (e da Internet das Coisas) é que ele causará a erosão definitiva da vida privada, ao criar galáxias de coisas localizáveis e acessíveis através de uma futura versão do Google. Nada mais se perderá, coisa alguma poderá ser escondida dentro do tecido digital. Ou poderá ser muito bem escondida, dentro de redes paralelas e clandestinas. O crime cibernético evolui ao mesmo tempo – e se bancos de dados podem ser hackeados, os spimes também poderão ser.

Mas a possibilidade de um objeto integrado ao ambiente é muito atraente. O spime seria o futuro (presente) do design industrial: um objeto de uso cotidiano que inclui um roteiro detalhado de sua origem, função e destino. Seria essencial para uma sociedade de consumo mais responsável, mais econômica e menos poluidora.

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Voltarei em breve a esse assunto, que tem muitos detalhes interessantes.

(Ilustração: Andrea Kulpas)